Tiãozinho precisa não

Isso de precisar sempre me cheira a coisa ruim.

Seria tão bom se a gente não precisasse dos outros. Fossemos totalmente independentes em nossa vida. Desde criancinha aprendêssemos a fazer de tudo. A vida seria um mar de rosas coloridas. Tudo seria simplificado.  Teríamos mais tempo para ficar à toa. E as brincadeiras seriam apenas de nós com nós mesmos.

Isso de precisar da ajuda de terceiros não me soa bem. E se a pessoa a qual pedimos ajuda não estiver disposta a nos ajudar? Receber um não nem sempre a gente aprecia.  Mas dizer sempre sim em contrapartida pode nos causar transtorno.

Desde cedo, meninozinho traquinas. Quando brincava naquela que daqui se deixar ver entre as folhas das persianas. Agora as tenho abaixadas para coibir a entrada do sol e carecia de algum companheirinho para jogar pelada naquele campinho cambeta. E não encontrava jogava com amiguinhos imaginários. Chamava-os pelos nomes fictícios: “Joãozinho você vai ser goleiro. Pedrinho vai jogar na linha. Antenor vai jogar na defesa”.

E o jogo não terminava nunca. Pois minha imaginação fértil me acompanha até hoje.

Tiãozinho é um garotinho esperto. Bom aluno, bom amigo, ele nunca se furta a ajudar as pessoas. Sempre pronto não sabe dizer não. Por isso se aproveitam da sua boa vontade.  E acabam abusando da sua solicitude.

Nunca o vi dizer não. E quando ele precisa de alguma coisa sempre diz não precisar.

Foi na semana passada que se deu o fato.

Tiãozinho estava vendendo balas num semáforo. Era uma das suas ocupações para levar dinheiro pra casa. Era de uma família pobre, mas de uma dignidade de fazer corar de vergonha a maioria dos políticos.

Naquela rua movimentada Tiãozinho aproveitava o intervalo entre o vermelho e o verde para vender seus produtos.

Quando algum motorista não queria comprar suas balas ele sempre dizia: “não se preocupe. Não precisa comprar. Que sabe o seguinte compra”?

E assim passavam seus dias. Entre a escola e os bicos que fazia quando o tempo lhe sobrava.

Tiãozinho crescia a olhos vistos.  Tornando-se gente de bem na maioridade.

E ele nunca deixava de ajudar as pessoas. Mas nem sempre essas pessoas estavam prontas a ajudá-lo.

Um dia precisei dele. Tiãozinho já era doutor na advocacia.

Estava precisando de um causídico para defender uma causa minha. Uma questão de divisas de minha roça com um vizinho arreliento.

Doutor Sebastião não só me ajudou a resolver aquela pendenga como não quis cobrar nada.

Chumbo trocado não dói. Foi na semana passada que ele me procurou no consultório. Queixando-se de uma dor do lado. Foi-lhe diagnosticado um cálculo renal que um dia iria ser eliminado.

Não carece dizer que não lhe cobrei a consulta.

Até hoje somos amigos. Embora não precisemos mais da ajuda um do outro.

 

 

 

 

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