Morreu na consulta

Dona Maria das Dores é o tipo de pessoa que vive e convive muito bem com as doenças.

Ela vai à farmácia só para espiar o preço dos remédios. Toma, por sua conta e risco, uma duzentena de medicamentos. A maior parte deles por sua auto-recreação.

Não dorme sem o seu Rivotril dois miligramas. Acorda e toma Aspirina Prevent por indicação do médico do seu coração. Aliás, ela é apaixonada pelo doutor Rodrigo. Aonde vai duas vezes ao dia só para que ele lhe dê um caloroso aperto de mão. E um beijo no coração.

Lá pela metade da manhã Dona Maria engole às pressas uma batelada de medicamentos. Entre eles um tal diazepan 10 mg, metildopa para não se sentir dopada, água boricada a qual dizem fazer bem para lavar os olhos, insulina injetável na veia para não se sentir velha, pantoprazol para não ter indigestão, finasterida a qual dizem que serve para crescer cabelo, pinga nas olheiras um colírio receitado por um farmacêutico cegueta, e outros mais dos quais ela se esquece o nome.

Dona Maria das Dores sente dor da orelha ao dedão do pé esquerdo. O direito também sente e ela consente. Dor de barriga faz parte do seu rosário de queixumes. Já tomou tanto lombrigueiro que vive assentada ao trono mesmo não tendo sangue azul a lhe correr nas veias entupidas.

Entre os especialistas que ela procura fazem parte da lista um alergista, um oculista que também lhe trata dos calos, o cardiologista pela qual cai de paixão, um médico dos rins que não sou eu, felizmente, um pneumologista que cuida dos seus pneus salientes, um angiologista que tenta conter a proliferação de suas varizes varicosas, e mais uns ou outros dos quais me esqueci.

Todas as consultas ela faz graças ao seus incontáveis planos de saúde que lhe custam mais de dez mil reais irreais.

As segundas ela vai se consultar com o seu amado cardio. Retorna duas vezes pela manhã.

As terças ela vai ao alergista que lhe prescreve qualquer coisa, pois sabe que de alérgica ela nada tem.

As quartas ela descansa na parte da manhã. Fica fofocando com a vizinha, Dona Vicentina, falando da vida alheia. Sem comentar os próprios defeitos. Na parte da tarde ela vai ao consultório do doutor das veias e velhas. Fica ali importunando o coitado até que ele lhe mostre aporta se ela não se importar.

As quintas outro infeliz médico lhe manda pros quintos dos inferno. De tanto que ela faz hora com sua cara nada hospitaleira. Só faltando lhe mandar pro hospício.

Foi justamente numa sexta feira que ocorreu o imbróglio.

Entre outras queixas Dona Maria clamava de um certo esquecimento.

Lamentava-se com o marido onde estava o celular. Perguntava à empregada onde havia esquecido sua carteira de dinheiro. Aos filhos indagava onde estaria aquela saia rodada. E saia de casa esquecida pra onde iria.

Por indicação de uma amiga acabou marcando consulta com um doutor especialista em esquecimento.

Ele não constava naquele livrinho dos médicos conveniados.

Mesmo assim, e não assado, marcou hora no consultório do doutor Marcos. Um especialista em doenças do sistema nervoso. Sujeito calminho e controlado. Mas, quando perdia a paciência não a encontrava de novo. E soltava os cachorros nos pacientes, que pacienciosamente esperavam a vez do atendimento.

Dessa vez dona Maria não esqueceu nem a hora da consulta nem o nome do doutor Marcos. Só não se lembrou de perguntar o preço da consulta. Já que ele não fazia parte dos seus inúmeros planos de saúde.

O atendimento se estendeu durante a manhã inteirinha e parte da tarde e meia.

O tal doutor de fato era muito competente.

Dona Maria das Dores saiu satisfeita do consultório até chegar à sala da secretária.

“Quanto devo ao doutor? Ainda não sei o valor da consulta”.

A servil e atenciosa secretária respondeu educadamente: “são três mil reais, minha senhora.  Vai fazer um pix ou paga em dinheiro vivo?”

Foi nessa hora exata que Dona Maria das Dores sentiu uma dor no peito e caiu pra trás, mortinha da silva. Morreu na hora da consulta que nem foi paga nessa vida…

 

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