As ideias da dona Maroca

Embora Frans Kafta tenha deixado escrito em letras grandes e pequenas tudo isso: “um livro pode ser o machado que quebra um mar congelado dentro de nós”.

Infelizmente grande parcela da população brasileira acha justamente o contrário.

Já constatei exatamente isso e dirimi minhas dúvidas acerca do conceito real que muitas pessoas fazem da importância de se ter um bom livro de cabeceira. Nada melhor que uma boa leitura para ajudar a ressonar um sono tranquilo. Quem tem a arte da escrita então deve dormir em nuvens branquinhas da cor de algodão recém colhido do algodoal.

Não me lembro bem de quando foi o ocorrido. Ignoro qual dos meus livros era aquele.

Deixei-o à venda numa banca de jornais no centro da minha cidade. Era aquela mesma pertinho do Banco do Brasil, num calçadão do lado da Igreja do Rosário.

Quase todos os dias passava por ali a ver se alguém tinha comprado esse livro.

Os quatro exemplares ficavam expostos aos olhos dos passantes no mesmo lugar.

Naquele dia dei falta de todos eles.

Entre preocupado com a ausência dos meus livros naquele espaço, e alegre por comprovar se um entre todos haviam sido vendidos, ao dono da banca perguntei: “meu senhor. Onde estão agora meus livros? Eles estavam por aqui. ”E apontei com o dedo o lugar onde eles estavam.

O simpático dono da banca acabou por me dizer sossegadamente: “olha meu bom doutor escrevinhador. Nenhum de seus livros foi vendido. Eles não mais estão no mesmo lugar, pois mudei-os pra outra prateleira. E, mais uma coisa lhe afianço-  ninguém rouba livros por mais bem escritos que sejam”.

Dona Maroca é uma senhora, de certa idade que se gaba, como nosso atual presidente, de nunca ter tido o prazer de passarinhar os olhos num livro sequer.

Elazinha, aposentada com muita grana, ex-funcionária de carreira que fugiu às carreiras da polícia por ter desviado uma soma polpuda do INSS. Mora num amplo e luxuoso apartamento numa zona rica da cidade. Tem numa das suas estantes uma coleção de livros. Todos luxuosamente encadernados em capas verde oliva combinando com a cor da estante.

Dona Maroca compra uma infinidade de livros e nunca os leu. Ela é uma acumuladora de coisas mais antigas do que ela com seu quase centenário.

Coleções de exemplares de livros ela os adquire pela cor da capa e não se importa com o conteúdo do miolo.

Foi, me parece no dia de trasanteontem que a visitei.

Ela se preparava para dormir de camisola da cor da sua combinação.

De meia na cabeça quase sem pelos nenhum, para não chamá-la de careca.

Já bem tarde da noite, beirando nove, quase dez (como se fosse possível tal sandice).

Foi uma visita não anunciada e não esperada. Não sei o motivo de estar no seu apartamento a essa hora.

Entrei sem ser convidado.  Do lado de fora chovia manso.

Assentei-me a um sofá espaçoso como eu.

Vi, com meus olhos incrédulos um monte de livros lindos perfilados na estante.

Matei a pauladas a minha curiosidade, quase mórbida e mortiça.

Sem querer desejando muito perguntei a dona Maroca se ela tinha lido a metade dos seus incontáveis livros.

Foi aí que ela me respondeu meio sem gracinha fazendo careta: “eu, Deus mo livro disso. Não sei ler e nem quero aprender.”

Deixei-a com um sentimento misturado de decepção e estupor.

Logo eu, médico escrevinhador. Com mais de vinte e tantas obras literárias publicadas e mais uma prestes a sair do forno.

Vou cuidar de mudar a capa dos meus livros para outra cor e modelo. Não me importa a intimidade  do miolo. Já que são tantas pessoas desmioladas país afora; pra que caprichar no conteúdo?

 

 

 

 

 

 

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