Missão comprida

Qual o tamanho de nossa missão.

Ela se mede em jardas, metros ou outra medida qualquer?

Pra muitos ela acaba na aposentadoria. Pra outros apenas a sepultura indica o fim da missão.

Pra que alongar a vida depois de perdermos quase tudo? A gente pode perder primeiro a visão. Não mais enxerga além das entrelinhas. Nem mesmo um óculos de fundo de garrafa da conta de melhorar nossa vista. Que não mais avista quase nada. Nem de perto nem de longe.

A seguir nossa audição claudica. Podem me perguntar pra quê continuar ouvindo? Se falam tanta asneira as nossas costas melhor fingirmos de surdos a persistir na escuta de tanta besteira.

Depois passamos a esquecer de quase tudo. Menos daquela velhinha que nos acompanhou a vida inteirinha e sucumbiu no ano passado. E que falta sentimos delazinha. Ela ainda é lembrada. Com sua fala pausada. Com seus gestos carinhosos a cuidar da gente.

A vida só tem sentido em saúde plena. Não vale a pena continuar a viver atado a um leito de hospital. Sem poder sequer alçar a mão no instante final. Para poder dizer com um gesto apenas: “por favor, eu lhes imploro. Desliguem todos os aparelhos que me mantém vivo. Deixem- me partir rumo a outra vida. Aqui não quero mais viver onde já fui feliz e não mais sou”.

Nossa missão se encomprida quando não queremos ainda parar. Dizemos adeus a aposentadoria que um dia desejamos depois de longos anos na labuta. Acordando ao nascer do sol. Tomando nosso cafezinho requentado. Tendo de ouvir impropérios do patrão. Que de nós exige pontualidade e dedicação. Sem sequer nos pagar um salário digno.

Pra mim minha missão ainda não terminou aqui na terra. Tenho muito ainda a dar de mim. Meu tirocínio ainda está acurado. Minhas pernas ainda me levam aonde quero. Meus olhos enxergam mais que deveriam.

Penso encompridar minha missão até quando tiver capacidade de amar e desejar bem ao próximo. Não penso ainda em me aposentar por completo. Meus anos aqui em baixo penso estarem distantes de terminarem.

Meu amigo Antonino. Pessoinha boa quase sem defeitos. Que viveu quase a vida inteirinha agarrado ao cabo da enxada. Nos seus muitos anos, beirando os noventa. Ainda pensa continuar na lida. Já perdeu a conta de quantos anos de serviço contou na lida pesada na roça.

Ali fez quase tudo. Ordenhava as vacas. Tratava da porcada.  Colhia os ovos das galinhas que faziam ninhos no mato. Pra ele não tinha tempo ruim. “Se piorar melhora”. Dizia ele com sua vozinha fanha.

Foi no sábado passado que estive com ele. Encontrei-o fazendo a sesta num balaio de milho seco.

Proseamos de tudo um cadinho. Falamos do tempo e da friagem que estava por vir. Naquela manhã de julho a temperatura caia aos menos de cinco degraus. A pastaria amanheceu gelada. Mal se via um palmo adiante do nariz que fungava uma fumacinha cinzenta.

Antonino, como sempre brincalhão. Pilheriou comigo apertando-me a mão lisinha e sem calos.

“Você não trabalha não? Mão de moça. Nunca pegou na enxada? Nem foiçou? Você é bem mais novo do que eu mas parece meu avô. Que idade você tem? Eu já passei dos noventa”.

Não dei a ele a resposta que gostaria. Apenas ri da sua fala.

“E ai Antonino. Até parece… Você sim, com seus noventa mais parece quase duzentos. Tem mais anos de estrada que eu de cama. Não se cansa de trabalhar? Eu já me cansei. Acordo mais cedo para ficar mais tempo à toa. Minha missão já está cumprida. Já criei dois filhos. Meus três netinhos competem aos pais. A medicina não mais me satisfaz. Já foi o tempo de ganhar dinheiro. Agora vivo de rendas. E vosmecê? Já cumpriu sua missão?”

Antonino riu e terminou me dizendo: “ainda tenho muito que fazer antes de desaparecer aqui do meu rincão amado. Pretendo encompridar minha missão até quando me deixarem.  Minha missão ainda está muito comprida. Longe ainda de ser cumprida. Assim espero até ver a terra me comer”.

Deveras, meu amigo Antonino está coberto de razão. Melhor viver encompridando sua missão a ver a terra cobrir o seu caixão.

 

 

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