A gente era feliz e nem sabia

Benditos tempos aqueles…

Que a palavra internet nem era conhecida. O computador então… Não passava de um sonho ainda não realizado. Que o celular nem era coisa de primeira necessidade. E o telefone fixo tilintava apenas para dar boas notícias e dar corda à prosa das comadres.

Que os pais punham os filhos de castigo quando eles faziam diabruras pensando estar às escondidas. Que uma vara de marmelo era respeitada tal e qual uma boa chinelada. Que deixava marcas em nosso traseiro. E a raiva que sentíamos de nossos pais passava logo depois da reprimenda. Pois eles eram venerados. Tidos como exemplos que marcaram nossa vida.

Crescemos aprendendo a respeitar nossos professores. Íamos à escola com a merendeira lotada de guloseimas. Preparadas com todo carinho por nossa mãezinha. Que derramava lágrimas pelos olhos quando nos despedíamos rumo à escola.

E quando a gente voltava da aula com a calça suja de barro. Com o olho roxo meio sem gracinha. Nosso pai nos chamava a um canto. Querendo saber qual foi o moleque que nos deu um soco na fuça. E com a gente voltava logo depois. Andando sempre com um pé atrás na intenção de conhecer de qual lado estava a razão. E, assim que a gente encontrava o peralta que nos deixou de olho roxo. Ele olhava de esguelha. Não punia de imediato o autor da desfeita. Pois ele queria saber qual foi o motivo da desavença.

Nossos joelhos ralados, depois do futebol animado naquele campinho cambeta. A dor era remediada com uma pomada milagreira que nossa avozinha fazia. E nosso pai entrava em campo ignorando a punição que o juiz da peleja iria a ele dar. Dobrava-se em mil em nosso socorro. E, se não ganhássemos a partida coitadinho da gente. A nossa mesada minguada seria adiada para o ano seguinte.

E quando a chuva caia engordando as enxurradas. Se pensam que a gente ficava em casa, ledo engano. Fazíamos barquinhos de folhas de jornal. E com eles pensávamos chegar ao mar.

Um graveto se transformava numa lança pontuda. E com ele fingíamos que éramos esgrimistas. Nossos tesouros eram bolinhas de gude e figurinhas colecionadas que enfeitavam álbuns de jogadores de futebol. Nossos ídolos eram outros, não Romários e Edmundos pessoas que não serviam de exemplos a gente de bem.

As nossas fotografias eram em preto e branco. Carinhosamente interligadas em álbuns que resistiam ao tempo. Que até hoje são guardadas não apenas em nossas lembranças como entulham gavetas.

Nossas cartas eram escritas a mão. Com letrinhas perfeitamente legíveis. E as garotas que as recebiam se tornavam nossas namoradinhas. Quem sabe, num futuro distante, nossas esposas.

Naquelas noites frias, debaixo das cobertas, não dormíamos sem rezar um Padre Nosso ou Ave Maria.  Sempre depois de sermos abençoados com um beijo açucarado de nossa mãezinha.

E as férias de final de ano? Agora perderam o encanto. Não mais passamos dezembro inteiro na roça de nossas tias avós. E aqueles banhos nas bacias grandonas? Naquelas águas mornas cheinhas de espuma? E os jantares a luz de lamparinas. Cada um enchendo o prato com carne de porco guardada na lata e arroz feitinho naquela hora lambendo os beiços de tão gostoso?

Meninos de agora desconhecem o tal carneiro. Aquele aparelhinho que faz tique taque e joga a água de um corguinho lá longe na caixa d’água em riba da laje.

Meninos de agora não sabem mais como é gostoso jogar conversa fora.  E passam o dia inteiro ligados aos tablets e celulares.

Essa geração nascida de pouco mal sabe como é bom subir num pé de jabuticaba madurinha. Disputar as mais grandonas com os marimbondos e abelhas abelhudas. E, se o galho estiver escorregadio pode despencar lá em baixo. Mas quem diz que o tombo machuca? Mal faz arder nossos fundilhos.

Nossa geração está indo embora. Afastando-se devagarinho. Como uma foto que vai pouco a pouco perdendo a cor.

Fomos crianças num tempo em que se podia ser. A gente de fato era feliz e nem sabia.

 

 

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