“Só no cemitério”

Por vezes penso em me aposentar por completo.

Também pudera! Depois de tantos anos de formado. Mais de cinquenta tenho contabilizados.

Penso em fechar a porteira da minha oficina de trabalho.

Já se passaram tantos anos que até perdi a conta. Foi em um mil novecentos e setenta e sete que aqui cheguei. Vindo de longe de terras de além mar. Não vim nadando e sim num grande navio deixando Barcelona mares atrás.

Na minha profissão fiz de tudo um cadinho.

Desdobrei-me em plantões que varavam noites. Perdi o sono o qual não encontrei até hoje.

Não somente na minha especialidade fiz-me médico. Um doutor sem a titulação devida já que não tenho nem o mestrado nem o doutorado.

De empregos em mais de um me desdobrava. Já que os salários irrisórios mal davam para as despesas. Atendia em três hospitais. Fui o primeiro especialista nessa cidade. Operava três ou mais pacientes na minha lida diária. Não tinha sossego e nem parança coisas que até hoje não tenho.

Dia primeiro de agosto. Como de costume deixo meu apartamento a mesma hora de sempre. Antes das seis. Meia horinha atrás dessa hora.

Um friozinho insistente me convidava a ficar na cama. Debaixo de grossas cobertas e bem acompanhado por minha dama.

Mas quem diz que assim o fiz. Já estou aqui. Na minha oficina de trabalho. A espera das oito horas. Quando começo a atender o primeiro consultante dessa sexta feira começo de agosto.

Primeiro de agosto tem pra mim um gostinho especial. Foi nesse dia iluminado que nasceu meu saudoso pai.

Hoje seus restos mortais descansam no campo santo. De vez em quando passo por ali. Oro, deposito flores. Peço a sua benção e choro.

Ele me deixou como legado não apenas seu exemplo de retidão. Como uma casinha pequeninha onde morei quando aqui cheguei. E a saudade que dele sinto e da minha amada mãe.

Foram essas suas palavras. Quando estava prestes a partir: “não se aposente nunca meu fillho. O ócio é o começo do fim”.

Como pretendo encompridar meu fim penso em não me aposentar tão cedo. Embora não saiba o que me reserva o porvir.

Tenho um compadre. Pessoinha simplesinha e de boa prosa. Seu Honório, que pensa igualzinho a mim.

Ele ainda trabalha. Coleciona calos nas mãos e horas extras de trabalho.

Já dobrou a serra faz um tempão. Tem idade pra ser meu avô.

Já fez de tudo um cadinho. Foi marceneiro, pintor de paredes, padeiro, e até conselheiro das causas perdidas.

Era um sábio sem ser doutor. Aprendeu com a vida tudo que sabe.

Estudou bem pouquinho. Foi até o segundo degrau e só não subiu mais, pois tinha de trabalhar.

Mestre na arte de fazer pães. Carpinteiro de mancheia. Professor sem a titulação devida. Dava conselhos a quem os pedia e não negava ajuda a quem carecia.

Seu Honório, com seus mais de oitenta, não diz quantos são. Mas eu sei que ele já quase chegou aos noventa. Anda como noticia ruim. Pedala a sua magrela pelas ruas da cidade. Anda na contramão da idade e sempre se gaba de não ter perdido a mocidade.

Um dia nos demos de mãos.

Seu Honório descia a rua e eu subia. Era por volta da volta das cinco e meia. Cedo pra mim e tarde pra ele.

Paramos um cadiquinho. Há tempos não nos víamos.

Ele montado na sua magrela e eu usando as minhas pernas.

“E ai amigo Honório? Ocê como sempre disposto né? Parece-me que esta melhor que dantes. Pedalando a sua bicicleta como se fosse um garoto. Já se aposentou por completo ou ainda faz qualquer coisinha”?

Ele desceu da sua magrela. Olhou-me fundo nos olhos, com uma expressão zombeteira me disse: “eu, Deus me livre. Só vou me aposentar no cemitério”.

Parece até que ele conhecia meu querido pai. Que somente se aposentou desse mesmo jeito.

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