Na iminência de vender um sonho

Quando deveria valer um sonho?

Um bom preço acredito.

Sonhos variam de valor. Depende de qual sonho sonhar.

Se for um sonho bastante sonhado. Várias vezes durante a noite ele vem em pensamentos. O valor desse sonho deveria ser muito alto. Mas se for um sonhozinho poucas vezes sonhado seu valor deve descer alguns degraus. Ele valeria menos que uma moeda de centavos.

Já esse meu sonho, sonhado desde priscas eras, quando aqui nessa cidade cheguei, vindas das terras distantes da bela Espanha. Precisamente da capital Madrid. Com a maleta de médico cheinha de sonhos. Nos anos idos de um mil novecentos e setenta e sete. Sonhava apenas em fazer da minha especialidade única, naquela ocasião, um meio de tratar as doenças das vias urinárias. Retirar pedras do meio do caminho. Desobstruir a uretra da danada da próstata hipertrofiada. Interferir no insucesso das disfunções eréteis. Sanar as dificuldades dos jovenzinhos na hora de fazer amor. Quando aquela pelinha crescidinha impede a higiene do pênis ainda em inicio de trabalho. E tantas outras enfermidades que a urologia tem pelo seu caminho árido.

Esse meu sonho foi concretizado ainda em começo da minha vida profissional. Nele empenhei uma bagatela de mais de quarenta mil reais.

Gostaria de seguir o exemplo de outros colegas que eram fazendeiros. Tiradores de leite ou até mesmo plantadores de café. Assim o fiz.

Por mais de trintanos pensei em ter lucro na atividade leiteira. Mal sabia eu a razão de o leite ser branquinho uma vez saído de uma vaca preta. E se vaca de três peitos da leite como as de quatro perfeitos. E se quando uma égua pisca a perseguida é sinal de que ela aceita a monta do garanhão. Mal sabia eu que a época do plantio é quando a chuva despenca do alto nas barbas de outubro em seu começo. Era um incipiente no oficio. Um menino, que anos depois se tornou adulto. O qual passava as férias na roça das minhas tias avós. Que trepava nas jabuticabeiras cheinhas de frutas maduras. Sem medo de cair lá do alto. Naqueles galhos escorregadios e finos na terra molhada do mês de dezembro.

Esse meu sonho custou bem baratinho. Mas ficou muito caro no decorrer dos anos.

Na minha rocinha prejuizenta construí uma casa. Cuidadosamente feita dos restos mortais da morada do meu avozinho Rodartino Rodarte. Janelas, portas, telhas, quase tudo foi trazido daquela casa começo da Costa Pereira.

Na minha rocinha construi depois um curral. Coberto para que as vacas não se sentissem desconfortáveis quando a chuva caísse. Calcei o tal curral. Logo a sua frente ergui um comedouro coberto. Com cochos de cimento sempre lotados de silagem de milho.

A estrada, sempre barrenta e escorregadia, se tornou um tormento a minha chegada. Quantas vezes nela atolei. Ainda bem que a prefeitura de Ijaci nunca se furtou em meu socorro.

Quantos prejuízos tomei ali. Na caçamba da minha caminhonetinha levava sacos e sacos de ração. Nela trazia carrapatos, causos pra contar e esterco curtido pra estercar não sei o quê.

Mas dava gosto ver, no debrum das tardes, canarinhos da terra ciscando o esterco seco do curral.  Vacas se despedindo das suas crias. Maritacas grasnarem frenéticas furando com o bico afiado as jabuticabas madurinhas.

Se me perguntarem se roça da lucro eu respondo: “pra quê? Não tem nada melhor de bão que ouvir o galo cantar bem cedinho. Pintinhos amarelinhos debaixo de suas mães. Protegidos por suas asas abertas do bico do gavião. Colher ovos botados de pouco em ninhos descobertos ao pé da bananeira que já deu cacho. Ver o assanhado jacu piar e a saracura espevitada entrar no brejo comido pelas taboas. Ou ainda tirar das águas serelepes daquele corguinho repleto de lambariizinhos de rabinhos vermelhos depois fritos na gordura quente das brasas ainda fumegantes do velho fogão a lenha”.

Foram-se mais de trintanos na produção leiteira. Era um retireiro a cada ano. Prejuízos faziam fila no meu bolso furado.

Até que um vizinho sabido me disse: “olha, cuidado. Vaca só da lucro aos olhos do dono. Retiro não tem dias santos ou feriados. Tem de estar presente.”

Ainda bem que entendi o seu recado.

Há mais de dez anos arrendei meu sonho a um amigo. Ele sim entendia de vacas e suas crias. Enquanto eu produzia quinhentos litros de leite ao mês. Ele, o arrendador das minhas terras, num só dia produzia mais que isso. Fora as catiras que ele fazia e não levava mantas.

Mas de repente meu amigo arrendador se cansou. Decidiu se mudar. Meu sonho se esboroou.

Foi pelos ares até chegar aos céus e morar com os anjos.

Agora me sinto na iminência de passar adiante meu sonho. A casa que construí, tijolos por janelas, grades por telhado, que foram da casa do meu avozinho Rodartino. O belo e acolhedor curral que minhas vacas baldeiras amavam. Os pés de jabuticabas que davam frutas docinhas vão ficar sem serventia.

Penso em vender meu sonho. E qual seria seu valor?

Se alguém estiver interessado me procure.

Não seria por um valor irrisório. Seria uma soma incomparável. Maior que os sonhos que tenho sonhado.

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