Um ventinho gelado zunia do lado de fora da janela.
Era uma sexta feira final de semana. Das tantas que Sô Mané estava acostumado a passar na sua lida diária.
Era bem cedo ainda. A mesma hora de sempre antes das cinco da madrugada. Nessa hora costumeira aquele senhor, que já deixou os setenta e tantos anos pra trás, acordava e deixava sua cama entregue ao calorzinho gostoso de seus cobertores. Era essa a sua rotina.
Sozinho ele tomava conta de uma rocinha nada produtiva. Ele enviuvou no mês passado. Sua amada dona Maria despediu-se da vida num sábado de outono. Foi pra ele o dia mais triste de sua vida. E como ele sofreu. Até hoje, passado tanto tempo, ele ainda se lembra de sua querida Maria. Uma mulher pra ele insubstituível. Nenhuma outra seria capaz de ocupar o seu lugar. Dai a sua opção em viver solitário naquele pedaço de pasto sujo. Um lugarzinho perdido aonde quem chega retrocede, pois errou o caminho.
Naquela sexta feira fria e ventosa Sô Mané tomou seu cafezinho meio frio e requentado mal acompanhado de um pão mofado sem manteiga e foi ao curral. Do lado de fora de sua casinha tosca uma cerração densa mal deixava ver o entorno. Geou durante a noite. Uma camada de gelo fino cobria a pastaria.
A vacada faminta mugia a frente da porteira do curral.
“Cadê a Braúna? E a Cinderela? Onde elas se meteram”?
A resposta foi dada no vôo rasante de dois urubus. As pobres vacas baldeiras morreram na noite passada. As duas melhores do seu plantel. Causa mortis – inanição.
Mesmo assim Sô Mané não perdeu a fé. Com os dedos rijos de frio tirou leite das restantes. Cinquenta litros foram mandados ao lacticínio. O velho caminhão leiteiro subiu o morro cheinho de latões de leites sacolejantes.
O mês de agosto ia pela metade. Logo seria tempo de arar a terra e semear sementinhas de milho. Mas cadê a chuva. No alto a friagem zunia. O sol não dava conta de esquentar a terra.
Eis que chega a noite. Sô Mané recolhia-se ao leito bem cedinho. Comia um resto de arroz do almoço. Por cima um ovo frito.
Na manhã seguinte a mesma cantilena. Da cama pro curral. Desse para a pastaria a ser roçada. Da roça de milho que não crescia ao curral para a segunda ordenha do dia. Já passava das sete da noite quando a cama o convidava para nela se acostar.
Pela televisão, que mais tinha serventia para enfeitar a ser assistida. Sô Mané assistia as noticias da semana. Noticias boas eram minorias. Ruins eram de encher o saco de quem perdia tempo em ver televisão.
O presidente norte americano deu um ultimado ao russo que, se não parasse de atacar a Ucrânia, não mais iria fazer turismo na Sibéria. A taxação dos produtos russos subiria as alturas. A crise manifesta devido as medidas do tal presidente topetudo iria aumentar o desemprego nos países do terceiro mundo. O comércio estava à bancarrota. Lojas fechavam as portas e ninguém se importava com isso. Essa crise por que o mundo passava não passava de falácias fantasiosas.
Mas pro Sô Mané a crise pra ele se definia doutro jeito. Foi isso que ele me contou.
“A crise por que passamos pra mim tem outro nome. Falta de vergonha na fuça. Preguiça de quem não quer trabalhar. Sem vergonhice em excesso. Gente que vive à custa das benesses desse desgoverno. Ao revés de trabalhar e plantar, mete a bunda no banco e espera a tal bolsa família. Pra mim não tem crise. Trabalho não me mete medo. O preço do litro de leite anda meio baixo. Então faço queijo e vendo na feira. Planto verduras. Se não chove irrigo. Se a roça de milho não cresce quem sabe no ano que vem melhora? Pra mim não tem tempo ruim. Ruins sim, são as pessoas que vivem a reclamar. Crise pra mim tem outro nome. Falta de vergonha na cara. Falta de querer trabalhar”.
Foi ontem que nos encontramos. Sô Mané, com aquele sorrisão a enfeitar-lhe a boca subia a rua. Despedi-me dele pensando a mesma coisa. A crise não passa de invencionice de quem não quer nada com a dureza. Num é?