Sábios ensinamentos do mestre Vitalino

Entre recomendações e conselhos reside uma grande diferença.

Recomendar da no mesmo que fazer ver com os próprios olhos. Eu recomendo que não façam aquilo. Mas se fazem o que bem entendem assumam a responsabilidade do feito. Mesmo que ele seja mal feito.

E se conselho fosse bom não se dava. Vendia-se a um preço nada camarada.

Muitas vezes fui aconselhado por meu pai.

“Paulinho. Estude mais um cadinho”. E euzinho ficava de olhos grudados aos livros. Graças a eles tomei gosto pela leitura.

Já algumas vezes me recomendaram que ficasse quietinho durante a aula de história. Mas, por ter uma certa antipatia por aquele professor metido a besta, de vez em quando a ele perguntava uma pergunta que de antemão já sabia a resposta.

“Fessor. Quando foi fundada Roma? E quem foi o fundador?”

Já sabia que quem fundou Roma foi Rômulo, em 21 de abril de 753 AC. E já sabia, por ter consultado dantes, que ele e seu irmão Remo foram abandonados ao nascer e criados por uma loba. E os irmãos disputam a fundação de Roma, e essa discórdia acabou se dissipando depois de Rômulo ter matado seu irmão. E a ele atribuem a fundação da cidade que se eternizou até os dias de hoje.

O tal professor de história, um tanto impressionado com meu vasto conhecimento, acabou me dando um dez. E até hoje, quando me lembro desse incidente, rio de mim mesmo. E se conselho fosse bom recomendaria a vocês que estudem mais do que eu.

Conheço o tal mestre Vitalino desde que desde foi escrito pela vez primeira.

Ele já passou dos tantos janeiros já chegando a um monte de dezembros.

Mestre sem ter sido professor. Sábio sem ter estudado muito.  Tudo que mestre Vitalino aprendeu não foi nos bancos escolares. A vida sim, foi sua mestra desde menino.

Vitalinozinho morava numa rocinha erma. Aos cinco anos aprendeu que o leite é branquinho mesmo emerso de uma vaca pretinha. E que gabiruzinho tem um destino cruel. O tal bezerrinho machinho não tem tempo de crescer e virar touro. É sacrificado ainda criança e vira linguiça. E ainda que quando a égua pisca é sinal de que ela aceita a monta do garanhão.

Frequentar escola não era do seu agrado.  Vitalino menino adorava gazetear aulas. Bom com a bola nos pés só não fez carreira no futebol pois a vida na roça não lhe deu oportunidades. Cresceu no cabo da enxada carpindo mato e tirando leite das vacas. Aos dezoito anos se emancipou. Tentou se mudar pra cidade e mais tarde se arrependeu.  Ali não tinha amigos. Não moravam vacas nem podia ver canarinhos da terra ciscando o esterco do curral.

Vitalino velho voltou pra roça pois ali era o seu lugar. No retorno as origens enfim encontrou a paz.

Um dia nos encontramos. Era um final de semana.

Era ainda cedo pra mim. Pra ele quase na hora de dormir.

Encontrei Seu Vitalino cochilando no rabo do fogão a lenha. Com as brasas ainda fumegantes.

Na intenção de acordá-lo cheguei de mansinho.

“Cuidado amigo, pode se queimar!”

Ele acordou meio assustado no seu cochilo.

“É vosmecê? Veio sem se anunciar”.

“É mesmo. Estava passando por aqui e resolvi dar uma paradinha. Tá tudo bem?Como vão as modas?”

Mestre Vitalino, meio sem gracinha por ter sido encontrado quase dormindo. Um soninho bom. Já de olhos abertos me respondeu: “ah! Meio fora de moda né? E vosmecê? Ocê ta meio sem voz. Anda rouco? Tá grimpado”?

Percebi que o amigo Vitalino estava querendo fazer graça. E continuei a prosa boa.

“Quais os ensinamentos que você quer me passar? Corre a boca graúda que você e muito sábio. Verdade isso”?

E ele, num riso incontido assim me falou sorridente: “olha. Se você quiser passar numa cerca de arame farpado deixa alguém passar na sua frente. Se a calça dele rasgar nos fundilhos a sua vai ser poupada. E se vosmecê quiser correr depressa vai mais devagar. Depressa demais cansa. Devagar se vai mais longe. E se ocê não aprecia apertar as mãos experimenta comer pimenta. As mãos ardem no caso de a pessoa ter passado pimenta ardida na mão. Já experimentou tomar banho de roupa? Tem coisa melhor? Assim economiza lavar roupa no tanquinho. Ah! Já ia me esquecendo do mior. Tá nervoso? Vai pescar! Mas não se esqueça de trazer peixes pra sua mulher, se não espere pra dormir lá fora com os cachorros. Cuidado com os falsos amigos. Eu prefiro ser amigo da onça antes que ela me coma”.

Pena que já estava mais que na hora de ir embora. Com meu amigo Vitalino aprendo mais que em todos os anos na escola.

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