O despertador do Sô Mané

Nunca precisei usar aquele reloginho, do lado da minha cabeceira, que tilinta sempre a mesma hora. Dizendo com seu apito estridente: “acorda dorminhoco, é hora de levantar”.

Tenho dentro de mim um relógio biológico. Uma vozinha manhosa que sempre me acorda a mesma horinha. No melhor do sono ela sempre me diz: “vai ficar na cama até quando? Já passou das cinco. Vai trabalhar vagabundo!”

E como sou obediente não reclamo. Fico de pé. Dispo-me do pijama. Vou ao banheiro. Assentado ao trono passo alguns momentos pensando que não sou rei. Embora a minha rainha continue dormindo saio de casa numa escuridão de intimidar morcegos. E aqui chego a mesma hora costumeira. Antes das seis da manhã. Meia horinha antes. E, na solidão do meu prédio relato o cotidiano que minha inspiração dita.

Como escrito acima não careço de despertador para acordar.  A minha rotina se torna enfadonha. Não sei mudá-la. Embora pense que a vida seria insustentável não fossem as mudanças a minha continua na mesmice costumeira.  Acordando sempre a mesma hora. Deixando minha oficina de trabalho antes das nove quando não tem pacientes agendados no mais tardar das horas. E aqui retornando sempre na primeira hora da tarde. E daqui me despedindo lá pelas quinze.  Nessa rotina que sempre me acompanha e eu não tenho do que me queixar.

Já meu amigo cujo nome é Manoel. Para descomplicá-lo resolveram abreviá-lo para Mané.

Pessoinha simplesinha pra lá de gente boa. Que vive em meio as vacas e apenas um afortunado touro. Pra ele não tem tempo ruim. “Se piorar melhora.” Diz ele num sorrisão iluminado.

Sô Mané desde muito é ajuntado a uma dona de nome Dorotéia. Nunca se casaram de papel amassado. “Pra quê, ela é minha muié. Num tenho outra, que ela saiba. Mas, se soubesse seria um Deus me acuda”.

Eles nunca tiveram filhotes. Não que não desejassem. Seria por culpa de quem? Até hoje não descobriram a verdade. E agora vivem sozinhos, naquele pedacinho de terra fim de mundo. Aonde quem chega de fato errou o caminho.

Seu Mané acorda bem cedinho.  De vez em pouquinho perde a hora e as vacas famintas já estão a beira do curral mugindo de saudade das suas crias.

A sua rotina é sempre a costumeira. Acordar antes das cinco. Tomar seu cafezinho requentado feito ontem. Comer um pão amanhecido enchido com dois ovos fritos. E sair de casa em direção ao curral.

As vacas já estão de prontidão. A primeira ordenha termina antes das oito. O velho caminhão leiteiro desce o morro. Quando chove Sô Mané tem de levar os latões de leite lá em cima. Não nas costas e sim na carroça puxada pelo eunuco cavalo castanho de nome Marreta.

Antes das onze Sô Mané tira um tempinho para o almoço. Uma sonequinha apetitosa se da ao luxo de fazer antes do começo da tarde. E ele recomeça a labuta lá pelas uma da tarde. Um cadinho antes das três da dobra do dia Mané começa a tirar lei. Depois das quatro já esta roçando a pastaria. Para um cadinho de descanso quando dona Dorotéia o chama para jantar.

“O que seria de mim sem ela”?

Foi assim que ele me recebeu naquela visita que a ele fiz no último sábado. Era um final de semana do mês de agosto quando entrando setembro deixando agosto a contragosto agonizando.

Era ainda cedo pra mim, não pra ele que se preparava para dormir.

Dona Dorotéia e seu marido cochilavam estendidos numa rede preguiçosa na varanda. Era uma tarde, quase noite, esplendorosa. No alto a lua, em caricias com o sol, preparava-se para entrar em cena.

Anunciei-me ao casal.

“Boas tardes. Desculpe-me chegar sem avisar. Acontece que passei por aqui e me lembrei de vocês. Estão bem, pelo visto”.

Sô Mané, num bocejo sonolento, meio assustado, me respondeu quase despencando da rede: “estamos bem mior que ontem. Já que hoje vosmecê passou por aqui. Devia ter avisado que vinhas, pois não sou adivinho. Nem gosto de vinho e sim de cachaça. E como ta tu”?

Eu, meio sem graça, quase caindo em desgraça, para não perder o amigo tentei contemporizar.

“E aí amigo Mané. Como você consegue acordar tão cedinho? Eu sempre perco a hora. Você tem despertador”?

Mané, com jeitinho que queria desencompridar a conversa. A mim desconversou desse jeito.

“O meu despertador não é um relógio que apita sempre a mesma hora. E nem o canto do galinho carijó. Eu desperto com o ronco da minha amada Dorotéia. Que começa a roncar um minutinho antes das cinco da manhã. Pra mim isso não é ronco e sim uma música linda como ela é”.

Fui embora pensando em fazer uma declaração de amor a minha amada Rosa. Não que ela ressone como a dona Dorotéia. Seu ressonar é muito melhor.

 

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