Antes seria bom elucidar.
Bebês podem nascer com um ou mais testículos fora da bolsa escrotal.
Essa anomalia é bastante frequente. Chamada de criptorquidia, caracteriza-se por não terem descido os testículos ao nascimento.
Fora do achego da bolsa escrotal os testículos não têm o desenvolvimento adequado e podem atrofiar. Dai a importância de ser corrigida há tempo. Até os dois anos, mais ou menos, o cirurgião, atendendo a indicação do pediatra. Deve intervir no paciente levando o testículo escondido a o seu lugar definitivo. E assim previnem-se maus maiores. Qual seja levar a esterilidade do futuro papai. Que na roça recebe o nome de roncoio. Ou roncolho como lhes apetecer.
Tento, grão, bago, são sinonímias sobejamente usadas para chamar o testículo. Aquele órgão par que se aloja no saco. Que pode ser extirpado quando não tem mais serventia. Sem causar maiores danos a quem perde, por um acidente imprevisto, como andar de bicicleta e deixar um deles no selim. Ou até mesmo quando um dos tentos se torna inconveniente por abrigar uma patologia de natureza maligna. Ou por uma inflamação contundente que dói como dor de dente.
De vez em quando por aqui aparece um jovenzinho portador de testículos não descidos. Essa doença acaba atazanando a vida dos moleques. A mãe, preocupada com a criança, vem a reboque.
Foi num dia desses que tive a oportunidade de atendê-lo. Não me lembro se seu nome era Joãozinho ou Zezinho. Algo parecido aqui apareceu.
O meninozinho veio acompanhado pela mãezona. Aquela mãe que pensa que sua criança nunca vai crescer.
Joãozinho, ou coisinha de menor valia, entrou na minha sala quase pondo em polvorosa meus peixinhos aquarianos. Elezinho me perguntou se podia pescar. Fiz que não com cara de bravo.
E que moleque assanhado era o tal João no diminutivo. Sua pobre mãe não sabia onde esconder sua vergonha. Joãozinho era meio ou totalmente hiperativo. Tomava Ritalina entre outros venenos.
A consulta durou quase o dia inteiro.
A anamnese se alongou por mais de duas horas. Ora falava a mãe, de outra hora Joãozinho ia ao aquário importunar meus peixinhos.
Quando tentei levar o menino à sala de exames foi uma luta desigual. De um lado a mãe puxava o filho pelos cabelos. Do outro eu desconjurava ter escolhido a minha especialidade naquele trágico momento.
Enfim sós, eu e elezinho. Para fazer o Joãozinho ficar peladinho tive de prometer a ele dar três peixinhos de presente. Ele aceitou depois de dar um chute na minha bolsa escrotal.
Exame físico feito e saí satisfeito.
Na minha sala tive de explicar a mãe do menino moleque artioso que de fato, e não de direito, ele era roncoio. Faltava um baguinho miudinho, que deveria estar escondidinho no andar de cima desde que o molequinho nasceu prematurinho.
Enfim dos finalmente a consulta terminou. Afff, digo eu.
Foi ai que o moleque, num instante de distração minha, entrou aquário adentro. Nadou sem saber nadar. Quase se afogou. E, se não fosse a intromissão de minha secretária salva vidas ele teria morrido mortinho. Foi quando fui testemunha do aplauso molhado dos meus queridos peixinhos.
E, no final da contenda. Depois de tudo aquilo e aquiloutro que nós passamos. Ainda tive de escutar da mãe do moleque, que não parava quieto, isso que deixo escrito: “doutor. Roncoio faz fio?”
Não falei mas pensei cá comigo.
Se forem filhos iguais ao pai melhor não fazer.