Por vezes penso: “qual seria a mais dura e difícil das profissões. Aquela que mais pesa aos nossos ombros, ou qual seja a que mais exige dos seus profissionais”?
Todas elas exigem esforço, gosto e dedicação. Horas de estudo e empenho para alcançar nossos objetivos.
Já tentei ser fazendeiro. Numa rocinha pequenina pensava que tirar leite dava lucro. Foram mais de trintanos nessa tentativa inglória. A cada ano um retireiro pedia as contas. E eu não contava os prejuízos que se amontoavam. Acabei desistindo dessa profissão. Depois de aprender que vaca só da lucro aos olhos do dono acabei arrendando minha rocinha antes prejuizenta a alguém que conhece o oficio. Pena que agora ele resolveu se mudar. E eu acabei me rendendo a conclusão que, pra alguma coisa dar lucro e satisfação, mister se faz gostar do que faz. E ali ficar de olhos grudados ao seu metier.
De vez em quando imagino que a profissão de engenheiro pode ser difícil de por em pé um edifício de muitos andares. Pra ter sucesso nessa empreitada é preciso fazer cálculos exatos. Senão a construção pode ruir e desabar.
E a de causídico? Um bom advogado deve ser respeitado por defender causas e não somente ficar a espera, na porta da cadeia, de criminosos endinheirados que a ele possam pagar honorários vultosos. E que não sejam gananciosos, e, sobretudo honestos nos seus princípios.
Já pensei que ser professor tem suas regalias. Não pelo salário irrisório. E sim quando alguém diz, com muita propriedade: “ah, não fosse pelo senhor. Não seria médico muito menos alguém letrado”.
E ainda penso que ser padeiro pode parecer que, sem pão não vive o homem. Mas para ser padeiro tem-se de acordar tão cedinho que acabei sendo despedido, pois deixei o pão queimar.
E no caso de a gente escolher ser desocupado e sem profissão? Também cansa. Acordar mais cedo para ficar mais tempo à toa vai ser criticado pelas pessoas que amam trabalhar.
E essa dura realidade em que vivemos em verdade me fez pensar que ela sim. A medicina, entre seus pares, pra mim é uma das mais difíceis de ser encarada.
O médico carece de seis longos anos para ser considerado doutor (pra ser doutor titulado mais anos serão precisos). E não para por ai. Aquele que deseja ser especialista precisa continuar estudando. Mais cinco, seis, anos de residência num hospital de bom conceito, sob a tutela de um orientador que já passou por tudo aquilo. O médico residente não tem noites de sono. Tem de se virar em mais trinta em plantões que viram noites pelo avesso. Tem de saber encarar a morte sem expressar o próprio sentimento. Tem de tomar decisões de pronta hora sem sequer pensar no próprio descanso. E, quando casados voltam pra casa exaustos e ainda têm de consolar a esposa aflita que perdeu a paciência com o filho recém nascido que chora noutro quarto. O médico tem de ser contido e não demonstrar aflição quando a ocasião pede. E devemos ser treinados para não chorar quando o choro teima em cair na nossa face numa situação constrangedora. Devemos saber escutar antes os queixumes dos pacientes e só depois emitir a nossa opinião. Pra ser médico tem-se de ter estômago. Pra conter o vômito quando um cheiro nauseabundo invade as nossas narinas. É saber enfrentar a dor alheia esquecendo-se da própria. É não poder dormir quando o sono vem. Ser médico é fingir-se de surdo mudo quando a mídia, sedenta de noticias ruins, a nós atribuem falhas do sistema. Não nos joguem aos ombros culpas maiores que não temos.
As outras profissões, todas elas, quando exercidas com ética e decência, têm o meu respeito.
Mas, a dura realidade que os médicos vivem, nesse pais onde a saúde deveria ser um direito de todos e um dever do estado. Pra mim ela não é levada com a devida seriedade. Isso digo com a experiência de mais de cinquenta anos de graduado. Depois de uma vida quase inteirinha dedicada à medicina.