Até explicar que angu não tem caroço…

As desinformações pululam na cabeça de nossa gente.

A educação e a saúde não são privilégios de todos nesse nosso país continental.

Uma minoria tem a chance de estudar em boas escolas. Já outros, menos afortunados, mal completaram o segundo degrau.

Dizem-se semi- analfabetos funcionais aqueles que aprenderam mal e mal a ler. Mas quase não entendem o que vai escrito. E se perdem em textos longos não entendendo o sentido.

As explicações por vezes são dadas. Uma, duas vezes, ou mais. E certos alunos levantam a mão. Distraídos que estão no manuseio de celulares. E acabam perguntando ao mestre: “Fessor. O que mesmo que o senhor falou”? Essa indagação inoportuna muitas vezes é feita. Haja paciência do professor. Eu, se fosse ele, não repetiria a pergunta. E sim a ele expulsaria da sala de aula. E poria seu celular sob minha tutela. Até que ele se comportasse a contento.

Muitos desavisados não conhecem bem ou mal do que se trata a minha especialidade médica.

A Urologia caminha entre as patologias dos rins, descendo pelos dois ureteres, até desaguar a urina na bexiga. E elazinha acaba expelindo as excreções dos rins ao exterior por um canalzinho enfiado no pênis, de nome uretra. No meio do caminho, no sexo masculino, situa-se uma glândula de nome próstata. Que quando incha acaba entupindo o trajeto. Tendo de ser removida numa certa idade dita provecta. Carece dizer que a próstata perde a serventia quando se fica velho. E pode passar a ser considerada persona não grata.

A confusão então se estabelece.

O exame dessa coisa nada boa se faz introduzindo o dedo indicador do examinador pelo ânus, final do caminho do intestino grosso. Que é batizado como reto.

Cuidado para quando escutar, de algum bonachão, querendo lhe passar uma gracinha quando lhe diz depressinha: “quantos anus você tem”? Entre anus com u e anos com o, mora uma grande diferença. O urologista pode ter grandes dificuldades em meter o dedão em tantos buracos. Imaginem um cidadão que já passou dos oitenta anus…

Continuando as explicações sobre do que se trata a Urologia vamos adiante.

É uma especialidade eminentemente cirúrgica. Que milita, sem ser militar.  Entre as operações de fimose. Retirada de pedrinhas formadas nos rins que descem sem avisar numa hora ingrata. E como dói o seu caminhar.

A minha especialidade ainda tem, em seus domínios, as doenças da bolsa escrotal.  Ali moram os testículos. Em número par. Quando eles crescem, ao derredor se amontoa liquido, a doença se chama hidrocele. Mas pode ser um tumor. Dai a importância de um diagnóstico bem feito.

Mas voltando as vacas frias. Tentando sanar as confusões. De vez em muitas vezes aqui aparece um consultante.

Ele veio encaminhado pelo seu plano de saúde. Onde a atendente, na sua função nada inteligente. Mal sabendo a distinção entre parafuso e porca a ser esfolada nas festas de final de ano. Entre saracura e queijo meia cura.  Acaba me encaminhando aquele paciente para meu atendimento de última hora.

A minha denodada e esperta secretária, ao telefone, quando recebe a ligação. Além de saber o nome e o telefone do paciente. Pacienciosamente quer saber qual o motivo da consulta.

A outra apenas lhe diz: “estou falando no consultório do urologista não”?

A resposta veio num singelo sim.

E a prosa continua, quando não deveria se alongar tanto: “qual o nome do consultante? E qual o plano de saúde”?

Não carecia de perguntar se ele tinha saúde. Já que ele vem se consultar.

E aqui aparece, e logo desaparece, um senhor se queixando de um carocinho que apareceu, recente , na parte final do seu reto. Qual seja no ânus, com u.

Dai a confusão que merece uma explicação conveniente.

O Urologista, no exame de próstata, enfia seu dedo intrometido pelo ânus.  Diga-se reto.

Já o Proctologista trata das doenças ano retais. Entre elas as hemorróidas e os tais carocinhos dos quais me queixou o paciente desavisado e mal encaminhado.

Dentro dos meus incontáveis anos de Urologia já estou cansado de tentar explicar que angu não tem caroço. Nem frango usa o pescoço para morder o cangote da franga.

Tenho dito e não me canso de repetir.

Por favor, eu lhes peço. Não mandem doenças do ânus ao urologista. Não confundam alhos com bugalhos.  Nós, urologistas, não sabemos nem queremos quebrar seu galho.

 

 

Deixe uma resposta