Foi ontem que a vi.
Ela estava no caixa de uma drogaria aqui na minha cidade. A mim me pareceu um tanto inexperiente naquela lida. Morena da cor de um jambo maduro. Cabelos negros encarapinhados enrolados em tranças. Olhos vivos pensativos. Não podia ver como era seu corpo já que o balcão da farmácia encobria parte dele. Ela, não tive a curiosidade nem tempo de perguntar seu nome. Não pude ler no seu crachá se ela se chama Maria ou Aurora. Paguei minha compra via pix. Foi rápido o nosso entrevero.
Deixei aquela moça pensando no quanto hoje se torna difícil vender livros. Não sei por que ela me inspirou nesse pensamento.
Verdade irrefutável. Livros não são objeto de consumo das pessoas nesse meu país e noutros pelos quais tenho passado. Pessoas quase não compram livros. Infelizmente livrarias escasseiam em nossas cidades. A internet tem culpa nesse meu pensamento. A informática, tablets e celulares, os tais kindles tomaram a vez dos livros impressos dos quais a gente pode sentir o cheiro, folheá-los e ler mesmo se falta luz naquele lugar. Livros feitos em gráficas ou editoras, que mais e mais fecham suas portas, pra mim importa muito suas falências. Pois tenho no meu conceito que editoras, nomeadas também gráficas, são como maternidades onde nascem crianças. Já que considero um novo livro recém lançado como um filhinho que vem ao mundo.
Não tem sido fácil comercializar meus exemplares. Na minha estante, que mora às minhas costas. Se abrir as portas livros saltam aos olhos. Alguns são comidos por traças e carunchos. Nem sei se os tais bichinhos devoradores de livros tiveram o prazer de lê-los antes de serem comidos.
Voltando as vacas frias. Ou melhor, escrevendo àquela moça da drogaria. Loja simpática onde não se vendem drogas e sim medicamentos e outros produtos de higiene e beleza.
Com ela me encontrei num dia depois do nosso primeiro encontro.
Foi numa pracinha de muita frequência no centro da minha cidade. Lugar aprazível onde se respira o verde e árvores centenárias nos dão cobertura nos dias de sol intenso.
A farmácia onde a mocinha trabalha fica um palmo acima.
O nosso encontro foi ao acaso. Não combinado previamente.
Assentada a um banco feito em concreto duro e desconfortável ela passarinhava seus olhinhos num livro de páginas abertas. Ele estava pela metade.
No tal banco só o seu lindo traseiro ocupava espaço. Ali cabia mais uma ou duas pessoas.
A ela dirigi a palavra quase monossilabicamente: “posso me assentar ao seu lado? Não seria incômodo pra você”?
Elazinha, sem desgrudar os olhos das páginas do livro me respondeu: “não senhor. Pode assentar aqui.”
Olhei de soslaio o titulo e o autor seguido da foto, na orelha do livro. Autoria de Maria de Fátima. A foto mostrava a moça do caixa da drogaria. Ela mesma, que conferia o assento ao meu lado esquerdo.
Entre assombrado e entusiasmado frente à descoberta. Já que descobri que a moça da farmácia era escritora, como eu. Tive a audácia de prosear com ela sobre o mundo obscuro da literatura. Da dificuldade de editar livros e passá-los adiante.
“Você também escreve livros? Que coisa boa. Somos almas gemelares. A inspiração nos cavouca a cada dia. E temos premência em botar pra fora nossas ideias e pensamentos. Esse que você está lendo é um dos seus livros, não é? Já escreveu outros? Por que você não os deixa a venda numa casa livreira? Eu já deixei os meus e eles permanecem no mesmo lugar. Escritor desconhecido não vende livros e daí permanece desconhecido.”
Maria de Fátima. O nomezinho daquela autora que constava na capa do livro. Cujo titulo pude ler em letras maiores: “O CANTO DAS CIGARRAS”, pitoresco livreto de poemas bem poéticos.
Quase não tive tempo de saber se ela punha seus livros de poesia à venda nas livrarias.
Pois Maria de Fátima ia pegar no trabalho naquela horinha quase exata.
E ela respondeu a minha pergunta que versava sobre vender livros.
“Eu nunca pus a venda qualquer dos meus livros. Uma vez apenas tentei vender de graça um livro de minha autoria. A pessoa a qual ofereci não só recusou a compra, de graça, sem pagar nadica de nada, como me respondeu malcriadamente- tá caro!”
Deixei aquela mocinha da drogaria ir à farmácia. Pensando alto com meu umbigo.
Infelizmente mente é a pura verdade. Mesmo tentando vender livros de graça tem gente que acha caro. Durma com um barulho desses…