Hoje mesmo, bem cedinho, fui direto ao trono. Não para receber minha coroa e muito menos para dar um beijo na minha rainha. Se não fosse ao vaso sanitário rapidinho não sei o que seria da companheira que dormia ao meu ladinho. Talvez sobrassem pra ela aqueles dejetos fétidos que foram por água abaixo pelo esgoto. Ou teria de por na máquina de lavar todos os lençóis da minha cama e meu pijama listado.
Muitos nomeiam essa minha urgência em defecar de alguns nomes. Segue a lista logo adiante: afitamento, afito, borra, caganeira, câmaras, carreirinha, caseira, corrução, destempero, piriri, soltura e outros pseudônimos mais.
Chega de dar nome as vacas. Deixem-nas pastarem na paz do verdume do pasto.
A pequena Glória, Glorinha para quem a conheceu, como eu na minha mocidade perdida cujos anos não voltam mais e nem me causam revolta.
Era uma meninazinha nascida e criada numa família desestruturada. Cujo pai safado, um dos muitos que montou na sua mãe e deixou seu espermatozóide fecundar seu óvulo. Era um traficante barra pesada que foi morto num tiroteio com a policia. A sua infeliz mãe teve de se prostituir para criar aquela ninhada de filhos famintos que não se desgrudavam de suas tetas cheias de leite branco daquela mãe branquinha como nuvens sem sinal de chuva a cair.
Glorinha parecia ser uma menina inteligente, aplicada aos livros, boa aluna na escola. Até seus doze aninhos. E como ela era bonita e ainda o é. Não muito magra nem gorda que não permitisse enlaçar sua cintura com uma fita métrica de alguns parcos centímetros.
Foi à hora do recreio que tudo aconteceu. Até então Glorinha desconhecia a palavra e não havia praticado sexo salvo em sonhos coloridos de pecado. Virginal não no signo. Mas sim intacta no seu selo de castidade.
Foi um garoto, que como eu não amava os Beatles nem nos Rollingstones. Era um craque não da bola e sim fumador de crack. Gilbertinho foi o primeiro, não o derradeiro, que a penetrou no traseiro. E elazinha tomou gosto pela coisa. Dizem, com muita sapiência: amor de p é amor que fica. Sábio dito.
Aos dezesseis aninhos Glorinha rodava bolsinha pelas ruas da cidade. De começo cobrava baratinho por uma horinha na cama não para dormir sossegada. Depois, com fama de boa de cama se esparramando Glória a Deus nas alturas e ela glorificando ela mesma nas baixuras. Glorinha putinha não tinha parança. Num dia fazia amor sem ter amor com o fulano. Noutro se deitava com o cicrano. No terceiro, de cócoras no travesseiro, se deixava enrabar no traseiro. Até tirar carteira na mais antiga das profissões: prostituta, puta, rameira, mulher de vida fácil, embora seja difícil se deitar com vários parceiros e ter de fingir orgasmo na hora H, meretriz, marafona, perdida, pécora, piranha, vagabunda e outros pseudônimos mais.
No entanto dos entretantos Glorinha não aceitava ser chamada de esses nomes listados acima.
Ela, uma moça senhora inteligente, de certa cultura e de muita envergadura moral (não se deve dizer das pessoas que, por elas serem putas não significa que não tenham moral). Amoral pra mim sim. Quando políticos dizem ser honestos até que se prove o contrário. E são apanhados com a cueca cheia de notas graúdas e dizem que não são deles e sim de outros colegas.
Vida dura tem a Glorinha. Mora num quartinho acanhadinho. De onde mal se poder ver a luz do sol ou a carinha sonolenta da lua. Quase não tem tempo pra dormir. Vive na sua dura profissão. Não tem carteira assinada nem férias muito menos décimo terceiro nem no quarto.
E elazinha não sabe o que é sentir prazer. Desconhece o sentido da palavra amor ou paixão. Por sorte não teve filhos. Cuida para não se engravidar. Morre de medo de contrair uma doença ligada ao sexo. Usa camisinha e exige que seus parceiros usem também.
E mais uma lição com ela aprendi.
Glorinha se nomeia não puta ou pseudônimos parecidos.
Diz ela ser pomposamente: “EMPRESÁRIA DA FELICIDADE ALHEIA”.