Já fui…

A gente já foi tantas coisas…

Fomos crianças na nossa infância perdida cujos anos não voltam mais.

Perdemos a mocidade depois de certa idade. Quando meninotes ainda jogávamos bolinhas de gude com nossos amiguinhos. Trocávamos figurinhas de jogadores de futebol na intenção de completar aquele álbum colorido. Onde figurinhas de jogadores já esquecidos pelo tempo. As mais difíceis eram aquelas de atletas famosos como as de Pelé, Tostão, Piazza e o goleiro de camisa amarela.  O qual era chamado de Vanderleia por sua parecença com uma cantora do mesmo nome que por aqui andou em tempos idos.

Já tivemos sonhos que se esboroaram. Esses mesmos sonhos se esfumaçaram e foram aos céus onde moram meus pais.

Já fomos adultos. Alguns de nós adúlteros. E nos arrependemos por termos traído nossa companheira.  Que nos esperava em casa com a janta pronta. E não demos a ela o devido valor. E nos entregamos nos braços de outra qualquer. Mais jovem e bonita. Com elazinha gastamos o que não podíamos. E de retorno a nossa casa arrependidos, como filhos pródigos que deixaram o lar. Justamente ela, nossa esposa e parceira, companheira nos bons e maus momentos;  que nos recebia de braços abertos e de olhos fechado a nossa traição.

Já fomos idosos e ainda o somos. Deixamos nossa mocidade a nos olhar lá de trás. Dizendo: “não se esqueça que o tempo passa. A gente envelhece como a uva vira passa”. Quando, devido a nossa idade provecta não temos tempo a perder. Agora é a hora. Não se deve deixar pra depois.

Já fui um doutor e ainda o sou. Não titulado desse titulo.  Apenas e tão somente um médico especialista em doenças dos rins, vias urinárias e aparelho genital masculino. Que há vinte e seis anos antes descobriu um novo prazer que me acompanha até nos dias de agora. Foi na noite do falecimento do meu pai que deitei no papel minha primeira crônica- Réquiem a um pai sem limites.  Depois não parei mais de escrever.

Fui o pioneiro em Urologia por essas bandas. Introduzi por aqui cirurgias que não eram feitas antão. Não tinha noites de sono. Aquele telefone preto tilintava à minha cabeceira vindo de um dos hospitais: “doutor Paulo Rodarte (achei melhor omitir o Abreu e o Expedito para não alongar muito meu nome). O senhor precisa voltar ao hospital. A sonda do paciente que o senhor operou entupiu  e não conseguimos  fazer a irrigação retornar. E eu ia contrafeito. Por vezes tinha de reoperar o paciente. As madrugadas me cativavam. E até hoje tenho por elas o maior chamego.

Já  fui tido como esnobe e brigão. As enfermeiras tinham medo de me chamar ao telefone. Vindo da Espanha, onde passei um ano inteiro completando minha formação urológica. Usando tamancos e pitando cachimbo sem saber sequer pitar cigarro. O que os anos fazem com a gente. Amoleci como quiabo em água quente. Desmanchei-me como manteiga derretida. Agora, não sei o porquê nem a razão. Talvez seja pela idade que me cavalga nos costados ainda duros e rijos. Meus netos são unânimes em dizer: “vovô. Deixa  a gente montar nas  suas costas? O senhor é um cavalo trotão, mas manso com a gente”.

Já fui turrão e ainda sou.  Não  gosto que me chamem a atenção. Puxões de orelha apenas a minha mãezinha podia fazer e ela não fez.

Já tenho tempo de me aposentar por completo. Mas não me permito.  Pra que ficar à toa a ver o tempo passar? Já acordo bem cedinho como um retireiro para o qual não existem sábados, dias santos ou feriados. Ou como um padeiro madrugão que se não vai à padaria quando o galo canta o pão queima no forno.

Já fui de tudo um cadinho. Menos ladrão e corrupto. Nunca surrupiei frases de outros escritores. Apenas tomo as melhores como empréstimo para ilustrar um dos meus romances. A exemplo como tenho feito ao me apropriar de algumas frases do meu colega de turma Gilberto Profeta.

Quantas e tantas coisas que já fui. Muitas continuo sendo.

 

 

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