Só ficamos nós dois

A vida canta desse jeito.

Nascemos, crescemos, ficamos bobos, pra que isso? Casamo-nos.

Na melhor parte da vida, quando deveríamos aproveitar de verdade. Com um emprego fixo. Com o dinheiro sobrando no bolso. Depois de comprarmos o apartamento desejado num ponto cobiçado da cidade. Com vistas para aquele parque onde se respira o verde. Ao revés de frequentarmos a noite. Tomando todas num bar cercado de garotas mal intencionadas. A nossa intenção muda, e pra pior. De repente, não mais que repentinamente, tomamos uma decisão equivocada. Resolvemos, num momento de indefinição, dar um basta a nossa solidão. E nos unimos a uma pessoinha que mal conhecíamos. Elazinha deveria ser a nossa companheira durante a vida inteira. Aquela que nos recebe em casa com o melhor sorriso. Recatadamente vestida. Com a comida prontinha com aquele cheirinho gostoso de tutu com torresmo bem acompanhada de arroz soltinho. Que me faz lembrar a comidinha apetitosa que minha mãezinha fazia à perfeição.

E nossa vida passa a ser um mar de rosas até que vêm os filhos. O primeiro não nos deixa dormir. E como chora o pentelho. Come desvairadamente tudo que encontra pela frente. Já o segundo, mal criado e mimado pela mãe, não gosta de ir à escola. Em má hora ele não aprende e vai pelo caminho errado. Ainda bem que ficamos só nos dois meninos. Se fossem mais seria um desatino. Uma vida atormentada que não merecíamos.

E o tempo passa. Envelhecemos juntos. Os filhos abandonam o ninho que de repente fica vazio. E nós dois, vivendo solitários naquela morada vazia, sem ao menos recebermos a visita dos filhos. Que nem nos deram netos, coisinhas mais fofas e preciosas.  Consolamo-nos um com o outro. Não nos apartamos nunca nem no sono. Dormimos abraçadinhos em nosso ninhal vazio.

A vida é isso, tenho aprendido. Que ao final só nos resta o achego de nossa companheira. A qual devemos não apenas a companhia. Como também, remetendo-me ao passado, como era bom, nos verdes anos. Quando nos conhecemos e pela primeira vez fizemos amor. Aquele ato tresloucado durou menos que a florada dos ipês.

Não teria ânimo de viver sem a sua companhia minha cara metade. Você me completa e me faz inteiro. De vez em quando rusgamos. Mas quem não tem diferenças?

A vida seria insossa sem a sua presença. Não teria sabor nem cheiro. Seria árida como um deserto desprovido de um oásis a sombra de umas palmeiras.

Viver subtende-se acompanhar-se. Não me imagino solitário na idade em que me encontro.

Careço de você como do ar que respiro. Você é minha musa e meu colírio.

De repente nos vimos sós. Eu e você a espera do dia do adeus.

Hoje dependemos da presença um do outro. Filhos e netos têm vida própria. De vez em quando eles nos visitam. E nós a eles.

Mas quem vai nos acudir nas doenças e nos momentos de aflição? Quem vai estar pertinho quando mais precisarmos? A quem recorrer quando o sono não vem?  A quem iremos reclamar quando, nessa idade em que nos encontramos, a fila não anda, a lotação lotada não tem assento pra gente.

A vida, a partir de certa idade, não deve e nem pode ser vivida em um apenas.

Ao final dela só nos resta nós dois. E ninguém mais.

Quando não mais tiver você ao meu lado, melhor ir pro outro lado. Quem  sabe lá, de novo, nos encontraremos…

 

 

 

 

 

 

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