Não sou de deixar pra depois. Se tenho de fazer nessa hora a hora é essa.
Não sou de deixar para o amanhã o que tenho de fazer hoje. Pois não sei o que o amanhã me reserva. Se vou estar por aqui ou deslumbrando a vista maravilhosa do céu.
A preguiça nunca foi minha companhia. Ao revés, tenho verdadeira admiração pela disposição.
Sou um madrugão consumido pelas madrugadas. Acordo na escuridão. A cama não me seduz como a pessoa que dorme ao meu lado. As noites não as tenho em alta estima. Prefiro o clarume dos dias ensolarados. A azáfama das ruas apinhadas de gente. O ir e vir no voltar do trabalho. Pessoas que se movimentam no dia após dia.
Deixar pra depois e se o depois não acontecer? O que vou fazer com o amanhã se ele não abre no pós hoje? Na incertitude das horas não vejo elas passarem. Agora meu relógio mostrava antes das seis. Agora já são seis e um cadinho. Minutos se sucedem. Segundos não há quem os alcance.
Tenho um amigo, de longos janeiros que deixaram fevereiros pra trás. De nome Antonino qualquer coisa. Ele não se importa com o que vem atrás. Sujeito simplesinho que vive e convive com passarinhos soltos. Numa rocinha erma perdida onde dizem que Judas nasceu.
Antonino não tem pressa. “Já passei da idade de me apressar”. Diz ele pitando seu paiero apagado. Assentado de banda nos seus calcanhares duros como espiga de milho já passado do ponto de cozinhar.
Antonino vive na companhia dele mesmo. “Eu me basto. Outro do meu lado não sinto bem.”
Deveras meu amigo já viveu na cidade. Lá não se acostumou. Não tem nenhuma saudade do barulho ensandecido do trânsito. Do ruído ensurdecedor das ruas apinhadas de gente apressada. Daquele entrecruzar de pernas afoitas para chegar ao trabalho.
“Já trabalhei demais. Já fiz de tudo um nada. Não ganhei dinheiro e sim calos nas mãos. Agora me dou o merecido descanso. Com as economias de uma vida inteira comprei esse pedacinho de terra onde espero um dia a morte vir me buscar. Não tenho pressa de viajar pro outro lado. Prefiro ficar aqui mesmo, quietinho, pitando meu cigarrinho de palha sempre apagado, pois não sei tragar.”
Foi assim que o encontrei no sábado passado quando o visitei. Estava de volta pra cidade onde moro e não vou dizer que não aprecio.
Como sempre apressado. Sem motivo certo.
A convite dele na sua morada entrei. Na trempe do fogão a lenha, com as brasas ainda fumegantes, descansava um bule de café. Ao seu lado uma broa de milho, saltando queijo pelas ventas, nos intimava à degustação. Estava um dia muito frio. Um gato angorá se aquecia ali pertinho. Quase dentro do fogão.
Antonino, calmamente assentado no rabo do fogão, pediu que eu me servisse do café e de um naco generoso da tal broa de milho feita agorinha mesmo. Não me fiz de rogado e assim o fiz. Não deixei pra depois. E ele fez o mesmo sem manifestar nenhuma pressa. Fez o mesmo não sem antes dar ao gato de estimação um safanão que o fez saltar de rabo em pé. O danado do gato não servia de nada. Nem para caçar ratos como era de sua atribuição.
“E ai compadre. Como vão as modas? Tudo conforme dança a viola ou desafinada? Ainda tá trabalhando? Ou agora descansa os louros da vitória”?
“Meio a meio. Nem sim nem não”. Respondi depois de engolir aperreado aquela deliciosa broa de milho com queijo saindo pelas beiradas.
Antonino, com aquele jeitão de moleque da pá virado ao contrário continuou nossa prosa amistosa com uma pitadinha de irreverência.
“Você ainda tem a mania de não deixar pra depois? Cuidado, o café tá quente. E a broa acabou de sair do forno. Dizem, com muita sabedoria: quem tem pressa come cru e quente. Você não queimou sua língua”?
De fato. O cafezinho entrou-me boca adentro como uma brasa fumegante. E a broa foi difícil de engolir, ardeu goela adentro.
Da próxima vez vou deixar a coisa esfriar. Pra bem depois provar.