Ah! Se minhas vontades prevalecessem. E tudo que gostaria de ganhar me fosse dado.
Em primeiro lugar gostaria de ser presenteado com um botão atado ao meu peito. O qual, a um simples toque, um leve roçar de dedos. Esse botão milagreiro seria o start para começar meu sono. Que somente iria terminar quando eu desejasse. Na manhã seguinte e na hora que eu determinasse. Tomando conta de mim como minha mãezinha fazia cantando cantigas de ninar. Impedindo assim que meu sono não fosse tão curto como ora se apresenta.
Outras vontades desejaria que fossem convertidas em realidades. Que meus livros fossem procurados nas livrarias como Best Sellers que um dia seriam temas de filmes épicos exibidos no mundo inteiro. Pena que os já editados estão encalhados como barcos em águas rasas.
Tenho a pretensão ainda de ganhar muitos leitores nas minhas obras literárias. Que lessem meus escritos e comentassem airosamente sobre temas descritos.
Seria bom demais se pudesse ajuntar pacientes aqui de fora da minha oficina de trabalho. E que eles fossem libertos de suas dores e queixumes.
No entanto, transportando-me à realidade, deixando de ficcionar tanto. Não gostaria de ganhar mais do que tenho. Dou-me por satisfeito com tudo aquilo que amealhei nos meus cinco anos a mais dos setenta. E tudo que vier a partir de agora será bem vindo. Grato sempre serei.
Esse breve intróito me fez lembrar de um casal de amigos.
Dona Zefa e Seu Juca são pessoas as quais tenho na prateleira bem do alto.
Marido e mulher desde quando me entendo por gente. Ambos já passaram dos tantos entas.
Lúcidos, amistosos, eles inspiram e respiram coisas boas. Já criaram filhos que lhe deram netos e bis.
Hoje vivem sós.
Aprenderam e me ensinaram que uma boa convivência deve ser recheado de afeto, respeito e amizade. E com os anos passados a tolerância se torna mola propulsora.
A relação entre dois deve ser mantida em fogo brando. Não quente demais nem fria ao exagero.
Seu Juca dorme do lado esquerdo. Dona Zefa não suporta cheiro de cigarro. Mas ela sabe que o marido pita escondido. E faz vista grossa aos seus defeitos menores.
E o amável Juca gosta de tomar uma cachacinha a hora do almoço. E dona Zefa faz de conta que não sabe, mas permite.
Dona Zefa gosta de dançar. No entanto seu marido tem as pernas duras. Mas ele não se zanga quando ela dança. Desde que ela não se sinta ofendida quando ele lança olhares pecaminosos à fulana da mesa do lado.
Seu Juca adora pescar. Dona Zefa não o acompanha na pescaria. Mas faz questão de saber com quem ele estava. Se com a fulana ou a sicrana ou com o amigo da onça que diz que não foi com ele pescar.
Dona Zefa ronca durante as madrugadas. E seu Juca simplesmente tapa os ouvidos para não se sentir incomodado. E passa a noite inteirinha de olhos fechados fingindo dormir. Mas quase não dorme nada devido aos roncos da pessoa amada.
A vida dos dois me serve de exemplo. Cada um deve aturar os defeitos do outro. Para um relacionamento durar até que a morte os separe uma discordiazinha aqui, uma desavença acolá, são águas que passam e como um rio, não volta jamais.
Nem tudo é do jeitinho que a gente gosta. Hoje a idade nos cavalga às costas. Para não sentir o peso dela mister se faz não fazer os desgostos maiores do que aquilo que a gente gosta.
Tolerância é a chave que abre todas as portas.