“Estou de saco cheio!”

Quem ainda não usou dessa expressão, considerada chula por aqueles amantes das boas normas de conduta. Que torcem o nariz sempre que falam dessa maneira. Mal sabem como ela faz bem em certos momentos de enfado. Quando temos vontade de jogar tudo pelo alto. Depois de extravasar nosso descontentamento, tudo aquilo que nos causa aborrecimento. Nosso saco esvazia por completo. Sentimos aquela sensação gostosa de relaxamento. Mais leves e vazios. Prontinhos a enfrentar de novo outras contrariedades. Já que a vida vive em meio a bons e maus momentos.

Dantes gostaria de ilustrar meu texto com algumas considerações sobre esse apêndice que mora no andar de baixo. Saco escrotal, também conhecida por bolsa escrotal. Trata-se de um envoltório que acolhe os dois testículos. Que pode ser apenas um, quando se nasce roncolho. Devido a algum acidente qualquer quando um bago se perde no assento da bicicleta. Ou devido a um tumor que aparece precocemente ou tardiamente. Que foi extirpado na hora certa, antes que o mal cresça. Essa bolsa escrotal pode aumentar devido a acúmulo de líquido ou até mesmo devido a uma hérnia que desce pelo canal inguinal abaixo. Ou por um tumor que acomete os testículos. E esse saco enche. Mais se parece a uma bexiga repleta de ar. Que pode doer ou não. Dai a importância de se procurar um urologista para identificar que doença seria essa.

Deixando a anatomia de lado vamos ao que interessa.

Ando meio de saco cheio nesses tempos em que vivemos.

Não se fala noutra coisa no cenário conturbado da política.

Essa briga de compadre entre o ex presidente e aquele careca manda chuva tem me intrigado. Pra mim tudo isso não tem valor. Deveriam sim se preocupar com a crise que se manifesta. Com a taxação maluca que tentam nos enfiar goela abaixo. Com a carestia que enfrentamos. Com os baixos salários que mal chegam ao meio do mês. E deixam famílias inteiras perdidas nesse oceano tormentoso onde nos debatemos sem sabermos nadar.

Estou com minha bolsa escrotal repleta não apenas com meus dois testículos. E sim com as maracutaias que as altas esferas nos impõem lá no planalto central na cidade que deveria chamar “cabide de empregos”. Lá um presidente vocifera com sua fala ensandecida. E nos faz envergonharmos de sermos brasileiros.

Estou ainda de saco cheio ao ouvir aquela emissora televisiva tentar impor a nós seus programas que nada acrescentam ao nosso cotidiano pouco erudito. A ter de assistir sempre a mesma ladainha. Um pai nosso desprovido de santos.  Cansado estou de tantas falcatruas que não são punidas ao rigor da lei.

Estou com minha bolsa escrotal repleta de imbecilidades. De tanto ver a bola rolar como se fosse o futebol a oitava maravilha do planeta.

Confesso-me estar de saco cheio de tanto escutar o que meus ouvidos renegam. De vez em quanto tento fazê-los moucos. Como se fosse possível viver em meio a tanta imundície.

Estou de saco cheio de tanto ter de conviver com pedintes a esmolar. Nesse país onde a riqueza ofende-nos o decoro. E a miséria absoluta pulula em cada esquina.

Estou de saco cheio de ouvir canditados prometendo endireitar a esquerda.  Como se fosse ela dona da verdade.

Confesso-me estar com minha bolsa escrotal cheinha pelas beiradas. Prestes a explodir. Ao ver fábricas fechando as portas, demitindo empregados. Deputados e senadores trabalhando tão pouco e ganhando cada vez mais.

Estou com minha bolsa escrotal cheinha. Não cabe mais nada dentro dela. Se aumentar mais vou-me consular com um colega. Antes que o mal cresça ainda mais.

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