“Por favor… Gostaria que todos lessem as minhas crônicas”

Aninha era uma meninazinha educada e estudiosa.

Não perdia um só dia de escola. Suas notas, principalmente em português, eram acima da média. Aos cinco anos foi alfabetizada. Aos sete já sabia escrever corretamente. Nascida em família humilde em casa faltava de tudo um pouco. Os pais, gente trabalhadora, saiam de casa ainda bem cedo e voltavam ao nascer da lua. Cansados de mais um dia de trabalho pesado. A mãe era cozinheira num restaurante frequentado por pessoas endinheiradas. O pai, metalúrgico numa fábrica de auto pecas, que acabou fechando as portas graças à crise reinante.

Aninha estudava numa escola de gente de posses. Como a família não tinha recursos a boa menina conseguiu uma bolsa de estudos que a ela permitia estudar isenta de pagamento.

Aos doze anos elazinha começou a escrever historinhas que eram publicadas no jornal da escola. Todas elas nascidas do seu cotidiano ao mesmo tempo cheio de coisas que ela presenciava e outras nascidas de sua incansável imaginação.

Aos quinze aninhos completos naquele ano, graças ao seu enorme talento em escrever, acabou publicando seu primeiro livro. Deste nasceram outros.

Aninha não tinha a pretensão de ser escritora. Mas como amava aquela arte que deveria ser consumida pelos leitores. Mas infelizmente não era isso que acontecia em nosso amado Brasil.

Foram-se anos. Foi-se o tempo.

Aninha deixou o diminutivo para se tornar a escritora Ana.

Aos vinte e cinco anos publicou seu primeiro romance. Mas as crônicas eram as suas preferidas. A cada dia escrevia mais uma. No total, até na presente data, contava com mais de cinco mil.

As crônicas retratavam seu cotidiano. Nascidas durante as madrugadas.

Seu desejo seria compilá-las em mais um livro.  Mandava textos para o jornal da cidade. Mas jornais de papel mais e mais escasseavam. A internet tomava conta de tudo. Livros impressos tinham destino sombrio.

A escritora Ana não desanimava. Mandava crônicas pra jornais de outras cidades. Tinha um blog próprio- Ana das mil e uma crônicas.

Quando acabava de escrever seus textos fazia questão de um retorno. Pra que escrever tanto se não tenho respostas dos meus leitores?

Ana vivia para seus escritos. Aos mais de trintanos já era velha conhecida na cidade toda.

De repente, num repente de insatisfação. Ana passou a não ter resposta as suas crônicas diárias. Pra que escrever tanto se ninguém lê? Eu gosto tanto de escrever. De postar os meus escritos. Mas não tenho a devida resposta. Eu me esforço tanto e só tenho desencanto.

Dá-me pena. Sinto-me como se fosse uma Ana escrevendo tanto. E não tendo leitores a repartirem meus escritos.

A gente não escreve para o próprio consumo. Escreve mos para sermos lidos. Não se faz boa comida para comermos sozinhos. Um bom prato, a exemplo de um bom livro, deve ser repartido entre muitas bocas e olhares de apreciação.

Parafraseando Aninha, aquela meninazinha estudiosa e boa com as letras, pego carona no que ela dizia: “por favor, gostaria que todos lessem as minhas crônicas”.

Ou, melhor ainda, que todos aqueles que gostam de ler comprem meus livros.

 

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