Quem ainda não ressonou, aquele som estranho, durante o sono que se torna pesadelo para a pessoa do lado, durante as noites em plena madrugada. Não sentiu na pele o desconforto de ter sido empurrado pro outro lado. E nossa amada esposa acordada, antes da hora, não mais consegue dormir. E acaba se mudando pro outro quarto. E nos deixa a ver navios no leito antes aquecido por sua pessoinha. Feliz de quem não ronca. E infeliz daquele que tem a desdita de tentar dormir ao lado do roncador.
Diz-se do ronco mil e uma inverdades. Aquele som rouco ou áspero vindo do nariz ou das profundezas da boca, ocorre quando a respiração é parcialmente obstruída durante o sono. Trata-se de um canto sem nenhum encanto. Um som que incomoda e produz desafetos aqueles que não lhe fazem eco. O melhor seria que o ronco fosse compartilhado a dois. Roncar de um só lado definitivamente não faz nenhum bem.
Tenho um casal de amigos. De longa data com eles convivo. Pessoinhas boas que moram numa rocinha erma distante da cidade. E quando eles aparecem pra mim é uma festa.
Seu Armando e dona Ester, são mais que amigos. Embora não sejam aparentados considero-os como primos.
Comungamos de tudo um cadinho. Já passamos dos setenta e mais da metade. Nascemos na mesma cidade. A nossa amizade já vem de longe. Dos anos distantes de um mil e não sei quantos.
Seu Armando é pródigo em fazer amigos. No banco da praça onde ele assenta ajuntam-se mais traseiros que o espaço comporta. Em verdade Seu armando não é um esvazia banco. Com sua prosa boa ele coleciona afeição e carinho de todos que o conhecem. Já a sua amada Ester é uma cozinheira de mancheia. Uma dona de casa que se casou há anos idos desse mês de julho que já passou da metade.
Ambos desfrutam de uma convivência a servir de exemplo a quem aprecia um bom relacionamento.
Quando um diz não o outro se cala. Quando não querem comer àquela hora deixam pra depois. A concórdia sempre foi uma característica daquele casamento. Poder-se-ia dizer serem almas gemelares.
O único problema que eles me contaram reconto com suas permissões.
Seu Armando é um roncador confesso e assumido. Já fez de tudo para fazer calar o ronco. Mas o ronco não concordou.
Fez dieta e de nada adiantou. Perdeu uns quilinhos e o ronco só aumentou. Operou as amígdalas, em criancinha, e o ronco continuou vida afora. Evita tomar álcool e o ressonar ainda mais aumentou. A derradeira consulta que fez ao otorrinolaringologista só lhe fez esvaziar ainda mais o bolso. Mudou de travesseiro, do lado de dormir, e neca de pitibiriba de parar de roncar.
Naquela manhã de sexta feira nos encontramos. Seu Armando e dona Ester estavam dando voltas na pracinha. Paramos no mesmo banco para um descanso. Eles estavam cansados. Eu não.
Dei um chute inicial em nossa prosa.
“E ai casal? Tá tudo nos conformes? A saúde vai de bem a melhor? Não os tenho visto. Não têm vindo à cidade? Da última vez que nos encontramos falamos de tudo um pouco. Inclusive do costume de roncar. E você Artur? Conseguiu atenuar a roncação? Procurou o especialista que lhe indiquei”?
Dona Ester não se manifestou naquela hora. Ao revés, emudeceu. Ao contrário, seu amado Artur pediu a palavra que lhe foi dada a vez.
“Ah! Gastei um dinheirão com o tal médico que você me aconselhou. E nada de resultados. Não tenho bebido mais, principalmente a noite. O ronco nem disse adeus. Fiz regime e só engordei. O ronco continuou pior ainda. Sabe o que fiz para melhorar o ronco? Permiti que minha querida Ester roncasse do outro lado. A sinfonia do nosso roncar juntos foi um achado e não um machado. Enquanto eu ronco alto ela abaixa o tom. Enquanto ela ronca mais alto eu tapo meus ouvidos. Agora não temos mais do que nos queixar e roncamos em paz”.
Amém, digo eu. Nem eu receitaria coisa melhor…