Agora é tarde

Um ventinho gelado mostrava a cara fria do mês de agosto.

O céu estava escuro quando Antonio da dona Dalva acordou.

Era a hora de costume, cinco e meia da manhã.

Mal se via o céu. A escuridão predominava. Nem mesmo uma estrelinha madrugadora mostrava a luminosidade.

Pro Seu Antonio já era tarde. Acostumado a acordar bem cedinho, a hora em que as galinhas deixam o poleiro com o ovo prestes a nascer. Pra ele não tinha tempo ruim. Chovendo, fazendo frio ou calor, em plena madrugada, ele deixava a cama entregue ao soninho bom de sua esposa dona Dalva. Ela levantava mais tarde. Lá pelas seis elazinha se punha de pé.

Eles viviam um pelo outro. Eram um grude só. Há mais de cinquenta anos de casados diziam um ao outro: “só vamos nos separar quando a morte viver nos buscar”.

Mesmo assim dizia ela: “nem a morte nos separa. Do outro lado da vida de novo iremos nos juntar”.

Seu Antonio, conhecido nas bandas de lá como seu Tunico. Mais fácil de pronunciar. Era um sujeito tinhoso. Não se desgostava de nadinha de nada. Pra ele se o tempo esquentava e não chovia na hora certa ele sempre calmamente dizia: “não se aperreie. Calma, um dia ela vem. Tomara que seja de mansinho e não faça estragos na minha roça de milho. Prestes a pendoar.”

Naquela madrugada, quase agosto mostrando as fuças. Naquele frio de fazer esquimó se enrolar num cobertor felpudo. Seu Tunico acordou com a vó atrás do toco.  Não era do seu costume acordar contrariado.

Acontece que as tais pragas das capivaras tinham se banqueteado na sua linda rocinha de milho. Não deixaram uma só espiga pra contar a história. O milharal todinho devastado. Um cenário de fazer pena mesmo as galinhas depenadas.

Seu Tunico tinha um costume. De não deixar nada pra depois.

“Se tenho de fazer hoje pra que deixar pra amanhã? Amanhã é outro dia. Não sei se estarei vivo no dia seguinte. Hoje sim, estou aqui. Amanhã quem sabe onde irei estar”?

Dona Dalva pensava da mesma maneira. Não se dava ao desfrute de desfrutar o dia seguinte. “O hoje nasceu inda agorinha mesmo. Amanhã não sei se ele vai nascer pra mim ou não.”

“Isso de dar valor a quem já morreu não tem sustância. Se querem me homenagear que o façam em vida. Não depositem flores no meu caixão. Tragam flores pra minha casa. Não corram atrás das borboletas. Se querem que elas pousem em sua mão plantem flores no seu jardim”.

Seu Tunico, na altura dos seus mais de oitenta anos sempre me dava exemplos de sabedoria.  Que prosa boa ele tinha. Era um chamariz de amigos.

Pra ele agora era a hora. Se era cedo demais ele não contestava as horas. Sempre com o relógio adiantado ele não perdia a hora. Chegava sempre cinco minutinhos antes e nunca faltava ao compromisso assumido.

Foi na semana passada que nos demos de olhos. Era ainda cedinho.

Cheguei à porta de sua casa antes das cinco e meia daquela tarde despedida de julho. Fazia sol. Um calorzinho gostoso com um ventinho ainda mais apetitoso.

Seu Tunico já me esperava desde meia hora atrás. Visita acertada para exatamente cinco daquela tarde de finado julho.

E ele me cumprimentou com a proverbial camaradagem.

“Seja bem vindo. Há tempos não aparece por aqui. Chegou meia hora atrasado. Tínhamos combinado sua visita para as cinco horas. E você se atrasou. Mas da próxima vez chega na hora certa. Agora já é tarde. Já estou prestes a dormir”.

Eita mundo bão. Na roça é sempre desse jeitinho. A gente dorme com as galinhas. E acorda com o galo cantando. E compromissos assumidos tem de ser cumpridos na hora exata. Se não vai perder a hora. E não deixam pra depois aquilo que deve ser feito nessa hora.

Sábio dito do Seu Tunico: “de que adianta falarem bem de uma pessoa depois que ela morre.  Melhor escutar encômios durante minha vida. Depois de morto estarei surdo aos que prantearam a minha morte”…

 

 

 

 

 

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