Como a vida prega peças na gente.
A gente muda conforme os anos passam.
Na minha infância me importava com os brinquedos que ganhava. Aquela bola de futebol, que me foi presenteada no meu aniversário de oito anos, não foi do meu agrado. E ela foi trocada por uma de couro purinho. Que satisfazia ao meu gosto de menino.
Já na minha juventude me importava com meus cabelos bem penteados. Já que os tinha fartos ainda, pra mim importava ter um topete caindo sobre minha testa ampla.
Uma vez já adulto, médico feito, a mim importava exercer uma medicina de ponta. Foi assim que cheguei da Espanha. Desembarquei no Rio de Janeiro vindo de Barcelona. Num calor de mais de trinta graus. Usando um casaco de couro. Calça de veludo marrom e pitando um cachimbo soltando baforadas de saudade daquela Madrid onde fiquei mais de um ano inteiro.
Naqueles tempos idos me importava em começar minha carreira na medicina. Tentava fazer bem feito as operações. Perdia noites de sono e ganhava mais pacientes. Meu consultório sempre de agenda lotada. A mim me importava ganhar dinheiro. Fazer um patrimônio expressivo. Deixar minha família tranquila com os ganhos que eu conquistava.
E os anos passavam. A idade avançava. Depois de tantos anos de graduado. Nos tempos de hoje perfazem mais de cinquenta. Pouco me importa ganhar dinheiro. O que tenho me basta com sobra. Já fiz de tudo um cadinho. Já trabalhei em três hospitais. Operava três, quatro ou mais pacientes ao dia. Foram vinte anos trabalhando sozinho. Pulando que nem macaco de galho em galho. De emprego ao outro me esforçava para dar tempo ao tempo pra mim. E quase não tinha tempo para o descanso.
Antes me importava com o sucesso da minha profissão. Espinhosa, que exige dedicação e especialização continua. Perdi conta de quantos congressos de urologia tive de frequentar. Não somente aqui como em outras terras de além mar. Viagens intermináveis não tinha paranca. Nem um minuto de sossego nem de longe me dava de presente.
Agora pouco me importa se tenho ou não tempo. Agora o tempo me sobra. Tenho tempo até de retratar o cotidiano. De acordar bem cedinho, madrugão contumaz e assumido.
A mim pouco importa se me procuram no consultório ou não. Antes sim. Importava-me com o tilintar do telefone. Ele me chamava durante as noites. Do hospital ligações me importunavam. Penso ter vindo de aí minha ojeriza as ligações inoportunas. Antes nem existiam os celulares. Nos tempos de agora eles passaram a ser essenciais a nossa vida.
Antes me importava com os encômios que me faziam. Agora pra mim tanto faz como tanto de desfaz. Não me importo se falam bem de mim ou menos mal. O que conta é que penso ter enfim conseguido plantar sementes de leitura nas mentes obscuras de pessoas que não gostam de ler. Importa-me sim que leiam o que deixo escrito. Se apreciam digam sim. Se não esperem pelo próximo texto.
Agora, quase na aurora da minha vida, já que estou prestes a deixar essa vida para me perenizar noutra, importa-me sim, que meus livros sejam lidos. Que minhas crônicas sejam curtidas. Que meu testemunho de vida seja útil aos mais jovens, que decidiram pela medicina.
Agora me importo sim, que meus netos sejam felizes. Que meus filhos possam encaminhá-los no bom caminho. Como meus pais fizeram comigo.
Pra mim conta, e muito. Que eu possa deixar como legado aos que vierem depois de mim, um rastro de cultura que clareie mentes pouco eruditas. Importo-me sim, com aqueles que virão depois do meu passamento. Que, se disserem o quanto eu era bom. Que o digam quando ainda estou vivo. Pois depois de morto não mais ouvirei seus elogios.
Pra mim pouco importa se fecharam as portas pra mim. Outra se abrirão no mais tardar dos anos. E por elas entrarei, espero.