Façam o que eu digo não o que eu faço.
Deveras. Deveria ser assim e não assado. Fazer o que se preconiza e não o que a realidade mostra. Assim transcorre a nossa vida. Dizemos sim, mas deveríamos dizer não. O não por vezes magoa. E o sim alegra aquela pessoa. Eu aprendi a ser mais feliz quando deixei de dizer sempre sim. E um sonoro não saía da minha boca contrariando as expectativas daquela pessoa acostumada a escutar sempre sim.
Dizer que o sono não faz falta pode ser contestado por quem dorme demais. A cama pra mim não me satisfaz. Ela continua a dormir e eu já acordado, há muitas horas, deixo-a entregue aos seus lençóis. A noite não me seduz. A luz do sol me inebria. Amo o clarume do dia. Adoro as madrugadas ensolaradas. Até mesmo quando uma chuvica cai sinto-me mais feliz ainda.
Dizem que a falta de sono pode trazer consequências danosas as pessoas. Tais como: dificuldades de concentração, irritabilidade, aumento da incidência de doenças crônicas e até mesmo pode provocar acidentes. No meu caso tudo isso não tem acontecido. Durmo bem pouquinho. Concentro-me em tudo que faço. Doenças crônicas em mim não têm tido espaço.
Acidentes com carros ainda menos. Quase não tiro o meu do estacionamento.
Já meu amigo Quinzinho. Gente boa até que se prove o contrário. O qual nem se lembra mais quantos anos tem. De tantas velinhas que já assoprou. Creio que já se foram mais de oitenta primaveras amontoando-se verões. Ele sempre sofreu de uma tal de insônia.
Diz ele que a tal de insônia deve ser aparentada a sua esposa dona Sônia. Aquela senhorinha bem veinha. Com quem se casou num ano já esquecido. E elazinha dormia nadica de nadinha. Ela não esquentava cama. Passava a noite inteirinha de olhinhos abertos como uma corujinha já desperta desde o verão passado.
Seu Quinzinho tinha uma saúde a vender aos outros. Doenças nele não se grudavam. Quando uma gripinha de nada pedia carona ele não dava. Curava elazinha com um chazinho de limão com mel agrião. Uma infusão de folhas secas de laranjeira nele fazia efeito melhor que aspirina com sonrisal. E cama? Nela não se deitava jamais. E por ter sido guarda noturno, assim que voltava do trabalho, tirava um cochilo generoso. E estava prontinho para encarar a vida como ela deve ser vivida; no clarume de um novo amanhecer.
Foi ontem que nos encontramos. Pra mim cedinho como pra ele era assim mesmo.
Foi na esquina da rua principal. Era por volta das cinco da matina. Cidade ainda entregue ao sono dos cidadãos.
Há tempos não nos víamos. Creio que mais de cinco anos.
Seu Quinzinho me pareceu bem conservado nos seus mais de oitenta. Com a pele lisinha como pêssego antes de madurar. Cabelos negros como urubu depois de um banho no piche. E as pernas prontinhas a caminhar.
“E aí amigo Quinzinho! Por onde andas? Não o tenho visto. Ainda tá no mesmo serviço? De guarda noturno? E a saúde? Vai bem? Não pensas em se aposentar”?
Ele me olhou de rabo de olho. Como se não me visse e me respondeu assim mesmo.
“Ah! De fato e sem direito. Tô melhor do que antes. Agorinha mesmo saí do serviço. Passei a noite inteirinha sem dormir. Como de costume. Não sinto falta de sono. Curto a luz do dia. Tenho medo da escuridão. No trabalho me chamam de morcegão. Só não fico grudado ao teto, pois tenho medo de despencar lá do alto. As pessoas dizem que dormir faz falta. Pra quê, penso eu? Tenho a morte inteira para continuar dormindo…”
Foi quando pensei com meu umbigo. Verdade, vou continuar desse jeitinho. Dormindo bem pouquinho. Esperando dormir sossegado durante a morte inteirinha.