Já tive prazeres, decepções me fizeram chorar.
Na infância, que se perdeu na distância, com que prazer esperava meus aniversários.
Nos meus cinco anos pra essa cidade me mudei. De Boa Esperança, sem que pudesse opinar, ainda bem novinho mal sabia eu que a gente muda segundo a vontade de nossos pais. Em minha Lavras querida finquei os pezinhos. Ainda titubeantes, depois de aprender a engatinhar. Já livre das fraldas e das tetas de minha mãe. No meu cumpleanos de cinco anos tive a satisfação de ganhar uma linda patinete. Pra mim não tinha coisa melhor que descer a ladeira daquela rua. Antes não calçada de asfalto meio desmazelado como se encontra hoje. De terra batida eu me equilibrava naquela patinete. Parando à porta da minha casa onde me esperava aflita a minha mãezinha. E euzinho, como seu primeiro filhote, ainda longe de deixar o ninho, me gabava de ser bom menino. Embora de quando em vez fizesse traquinagens. Como um dia, jogando bola naquele campinho cambeta, um chute sem endereço certo acabou estilhaçando a vidraça daquele vizinho ranheta.
Não tinha coisa melhor pra mim do que chegar da escola cansado. Mostrando meu boletim recheado de notas altas ao meu pai. Que sorria de tão contente. E dizia aos seus clientes daquela casa bancária, onde mais tarde ele se tornou gerente: “olha que notas boas do meu primogênito! Esse moleque vai longe. Num futuro espero que ele se torne médico”.
Mal sabia ele que seu vaticínio iria se concretizar. E mais ainda que eu seria, além de médico, metido a escritor.
Caminhando em direção ao futuro, ainda morando naquela rua que daqui se avista a mão esquerda. Na juventude em que me encontrava. Andando ao revés naquela mesma praça, assentado ao mesmo banco. Foi quando meus olhos pousaram nos olhos dela. E como foi bom estreitarmos as mãos. Enlaçar sua cintura. E pedir ao pai dela que deixasse elazinha ser minha namorada. Não tinha coisa melhor que ir ao cinema, pagar meia entrada, afanar um ou dois beijinhos e vê-la ruborizar-se todinha, da cabeça ao andar de baixo.
E pra mim não teve coisa melhor que, quando me diplomei em medicina, naquele ginásio lotado, na capital do meu estado. Percebi, entre os inúmeros convivas, a carinha daquela mocinha sorrir, um sorriso encantador. Que ajudava a atenuar a minha dor quando me fiz ausente delazinha. Durante aquele ano inteiro quando passei em terras d´além mar. Completando a minha formação em Urologia.
E mais tarde, já de volta a minha cidade. Onde estou a quase uma eternidade. Solteirinho da silva. Sem ninguém a dizer o que deveria fazer. Foi muito bom quando ela, a mesma elazinha que sempre me encantou. Durante uma volta no meu chevetinho azul piscina meio suja. Ela mesma me cercou. Chamou-me as falas. E não mais pude escapar ao seu abraço carinhoso. E com ela vivo e convivo desde aquelas priscas eras. E eu, que já era solteiro, uni-me por inteiro aquela mesma mocinha. Que hoje é avozinha dos meus três netinhos. E, pra mim não tem coisa melhor que ser avô. Um estraga netos que faz todas as suas vontades que se confundem as minhas.
Não tem coisa melhor pra mim, ao acordar bem cedinho. Juntinho delazinha. Chegar a minha oficina de trabalho. Onde mais escrevo do que propriamente atendo pacientes. Dou pinceladas no cotidiano que me rodeia. Dou vazão à inspiração que me cavouca por dentro. Tento dominar minha ansiedade já que não tenho parança. E, de volta a minha morada, assisto a um ou dois filmes pela Netflix.
Não tem coisa melhor que comer comida boa. Antes do meio dia lá estou eu a espera do almoço. Tenho uma fome de cão faminto. No entanto prefiro um bom prato de arroz com feijão e angu a ração que os cães comem.
Pra mim não tem coisa melhor que, antes que a tarde se transforme em noite. Já que não tenho grandes simpatias pelas noites. Como me apraz exercitar meu corpo. Já que a mente já se exercitou bem cedinho.
Pra mim não tem coisa melhor que a vida que tenho levado. Desde garoto levado. Ao jovem que já fui. Ao adulto que já deixei pra trás. Ao ancião que ainda não me sinto.
As horas que passo aqui. Dando forma aos meus escritos. E pra mim não tem coisa melhor que, no momento que um livro nasce. É como se fosse um filho que nascesse e fosse depositado em meus braços.
Não tem nada melhor pra mim quando ponho um ponto final em uma crônica. Num livro então, sinto-me como o mais feliz dos mortais.