É, parece que o fim se aproxima…

Como saber se o fim vai chegar? Se nem ao menos sabemos o que vai acontecer de agora a uma hora? Sei sim, o que aconteceu no dia de ontem. Foi um dia igual aos outros. Na mesmice costumeira de sempre.

Mas saber o que o futuro nos reserva não desejo saber. Deixo essa interrogação ao dia seguinte. Prefiro deixar a vida transcorrer na mesma toada. Naquele trote cadenciado. Como um cavalo de boa marcha trotando sossegado pela estrada.

Com muita sapiência dizem: “o futuro a Ele pertence. E já que fomos feitos a sua imagem e semelhança por que não deixarmos ao Deus Pai a incumbência de nos chamar a viver junto a Ele? Pois bem sei que Ele sabe das coisas. E nós outros, vis mortais, quase nada entendemos desse mundo. Que se torna cada vez mais imundo graças aos desatinos que cometemos em nossa vida terrena. Felizmente pouco iremos durar. Já que nossa finitude tem a mesma certeza de quando nascemos”.

Pra mim o fim se avizinha no momento em que deixamos de sonhar. Pois sem sonhos a nossa vida se transforma em pesadelo.

O final dos tempos acontece quando a gente falece. Seria a morte em verdade o fim? Ou seria apenas o começo de outra vida? Se é que ela existe prefiro a ela ser apresentado num tempo ainda não programado. Já que pretendo partir, embora não seja pretensioso, só depois de perder a vontade de viver.

O fim da rua se aproxima. Sabemos disso. Mas vaticinar quando vai ser o nosso final pra mim não é prioridade. Já que vivo o presente. Não me desvencilhando do passado. Entregue a um futuro incerto. Nesses meus setenta e cinco anos que se transformarão em mais um em dezembro perto.

Pro meu amigo Lupicínio. Sujeito de bem com a vida no seu quase centenário. Ele não pensa no fim e sim no começo.

Ele começou a trabalhar bem cedo e ainda pega duro na lida. Não se queixa de nada. Tem um sorriso iluminado na sua banguelice desdentada.

Um dia a ele perguntei, tentando explorar sua sabedoria: “e aí meu caro Lupicínio? Andas bem de saúde? Ou alguma doença tem lhe incomodado”?

Ele sorriu e me deu uma resposta ao pé da boca: “que nada! Doenças as quero bem longe. A última vez que tive de procurar um doutor até já me esqueci. Ah! Já me lembrei. Foi por causa de um bicho de pé que coçava e não me deixava andar descalço”.

Querendo encompridar a prosa continuei a perguntar: “meu querido amigo. Com a saúde que tens vais viver até mais de duzentos. O que tem feito para viver em saúde perfeita”?

Lupicínio, num arroubo de impaciência, já que tinha de continuar a capina daquele pasto sujo. Acabou me respondendo meio mal criado: “não penso em me aposentar. Não deixo a enxada nem a foice descansar. Acordo bem cedinho. Nunca careci usar remedinho pra dormir. Como o que me dão. Não faço dieta. Amo comer torresmo duro mesmo usando dentadura. Não penso no fim. Já que nem comecei a viver ainda. Estou no melhor dos meus dias. Se dizem que estou velho respondo- “olhe você no espelho. Pergunte a ele quem é mais velho? Eu ou você? Experimenta pegar na enxada e tirar uma tarefa de sete varas. Pra mim o fim não tem hora de chegar. Ando devagar, pois não tenho pressa. E, quando chegar meu fim dou uma paradinha. E peço ao Paizinho do céu que me dê mais um tempinho. Tenho muita capina pra capinar”.

Já que era tarde deixei meu amigo Lupicínio continuando a capinar.

Peguei uma enxada e me pus a trabalhar. Quem sabe assim consiga postergar meu fim.

Dessa maneira talvez possa dar uma adiadinha ao meu final. Sem por um ponto final na minha vida, e sim reticências…

 

 

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