Foi com essa sensação de alivio e contentamento que Zé Feliciano acordou naquela madrugada de domingo sete de setembro.
Era um domingo mais que feriado. Na sua rocinha não existem tais dias de folgar.
De segunda a outra nada mudava. Era um tal de acordar bem cedinho. Lavar a fuça n’água fria para espantar o sono. Tomar um cafezinho recém coado. Tentar comer sem dentes uma broa feita na semana passada. E sair de casa prontinho a encarar as tarefas do dia.
Naquele domingo feriado. Mas pra que guardar feriado examente num domingo. Poderia muito melhor enforcar a segunda. Mas quem diria que suas amadas vacas iriam deixar de dar leite um dia somente. Pra elas não têm dia santo nem feriado.
Acontece que, por ser esse dia dedicado ao dia da pátria. Quando alguém, num ato de insanidade, decidiu dar um basta no jugo de Portugal. Declarando a nossa independência. E até hoje penso, em voz baixa- pra que ficarmos independentes? Se dependemos totalmente do resto do mundo. Pois ninguém consegue viver isolado. Como se fosse uma ilha perdida no meio do oceano.
Zé Feliciano, filho da dona Felícia do seu Felizardo. Era uma família feliz até quando foram à bancarrota. Perderam tudo na última seca. Nada que plantaram nasceu. O cadinho que poderiam colher foi devorado pelas capivaras gordas que nada tinha que fazer, pois comeram toda a roça de milho.
Dona Felícia e seu Felizardo morreram infelizes de tanta tristeza. Só sobrou o pobre Zé Feliciano. Que sobrevive a duras penas até os dias de hoje.
Naquela manhã de domingo mais que feriado Zé acordou sobressaltado.
Era dia de ir à cidade. Mas como deixar sua rocinha entregue a quem não se sabe se ele mesmo não sabia? Acabou deixando tudo entregue ao desmazelo de outro Zé desmazelado.
Seu primo longe prometeu cuidar da rocinha desde que o outro Zé lhe pagasse um salário mínimo por um dia de trabalho. Uma exploração, convenhamos.
Mas Zé acabou aceitando pois não tinha outra opção.
Zé Feliciano partiu rumo à cidade de carona no velho caminhão leiteiro entre latões de leite sacolejantes. Na cidade chegou sentindo-se um queijo meio coalhado. Rançoso e cheirando mal.
Ali começava a parada de sete de setembro. Um desfile que iria terminar somente à tarde.
Zé não tinha nada que comer. Com a barriga roncando de fome acabou enfiando boca abaixo um cachorro frio que cheirava azedo. A salsicha deveria ter sido feita no ano passado. E o pãozinho mofado mal dava conta de agasalhar aquele fedor meio adocicado.
Não deu outra. No meio do desfile Zé sentiu-se mais que mal. A fila do banheiro químico rodava quarteirão. Zé, num momento de alucinação, com a barriga prestes a estourar de dor, acabou fazendo tudo na cueca. E como trocar de roupa se não tinha outra?
Foi quando teve a infeliz idéia de tentar lavar a roupa suja na fonte luminosa da praça.
Escondendo a vergonha assim o fez. Naquela multidão Zé não tinha como ficar pelado sem mostrar a própria nudez. Acabou escondendo-se num moita de capim. Peladinho como veio ao mundo mais imundo ainda.
Foi, nessa hora ingrata, descoberto por uma penca de crianças. Uma delas olhou pra ele e gritou a plenos pulmões: “mãe, olha um homem pelado!”
Foi o bastante para o Zé tentar sumir na multidão. E que confusão se deu.
Zé acabou em cana. Foi preso por atentado ao despudor.
No resto do domingo o desfile do dia da pátria terminou. E o pobre Zé Feliciano acabou preso.
Foi solto na segunda de noite. Com uma sensação de alivio e alegria voltou a sua amada rocinha. E ainda teve de pagar ao primo a importância que não tinha.
Mesmo assim encontrei feliz o Zé Feliciano nessa segunda quando ali cheguei de mansinho.
“Ainda bem que acabou bem né Zé”?
Assim disse. No que ele respondeu sorrindo: “podia ser pior né. Imagina vosmecê se Dom Pedro não tivesse dado o grito. Meu grito foi mais alto e muitos ouviram. E passei um mal bocado na borduna do guarda que me prendeu pelado.”