Como melhor definir avô?
Seria aquele senhor, alquebrado pelos anos, que quase não enxerga mais. Anda meio cambeta pelas ruas. Titubeia de vez em quando. Confunde alhos com cartas de baralho. E fala em voz alta já que pouco escuta. Mas não perde de vista aquela gostosona que passa a sua frente. Com a desculpa de não enxergar direito passa a mão boba onde não deve. E se desculpa dizendo: “o senhor me perdoa, pois pensei que era meu compadre Juca”.
Ser velho tem muitas regalias. Pra mim se trata de um privilégio. Já que muitos jovens não chegam a minha idade.
Primeiro a gente vai ser pai. De pai passamos a avô. Quer coisa mais gostosa de quando um netinho chega devagarzinho. E diz aos nossos ouvidos um tanto surdos: “vô. Como eu gosto de você”. Pra mim não tem coisa melhor. E eu retribuo ao seu carinho depositando em sua mãozinha esperta uma nota bem gorda de uns cem reais. Desde que elezinho deixe seu tablet de lado e passe a brincar comigo de esconde onde não te acho.
A ser chamado de velho prefiro que me chamem de tiozão. Aquele fulano, já passado dos anos, que sobe de elevador como uma garota que poderia ser sua neta. Usando uma minissaia que mal encobre sua falta de vergonha. E ele olha pra ela, fingindo-se de desentendido, e lhe diz uma gracinha: “como você é bonita e graciosa. Qual a sua graça”?
A mocinha, nada pudica, sem saber o que seja graça. Qual seja seu nome de batismo. A ele responde meio sem graça. Deixando o velho babão cair em desgraça: “meu nome de guerra, na zona do baixo meretrício onde milito. É Tiana da zona sul. Mas poucos sabem onde moro. No subúrbio, bem em cima do morro. Mas morro de vontade de morar no Leblon”.
Os avôs têm muitas serventias. Ontem fui apresentado a uma delas.
Estava à espera de um dos meus netinhos à porta de seu colégio.
Ali cheguei uma horinha antes. Como de costume apressado.
Nunca vi tantas crianças. Pais, mães, professoras, levavam meninos e meninas pelas mãos.
Entre eles cabeças brancas pela geada dos anos esperavam crianças.
Avôs dominavam o cenário confuso e tumultuado. Um desses avôs era meu velho conhecido.
“Aqui venho todos os dias. Vim pegar minha netinha. Não tenho nada que fazer né”?
Foi pensando nisso que tirei minhas conclusões.
Avôs têm muitas serventias.
Além dessa de buscar netos na escola. De estragá-los com as nossas permissões indevidas.
Somos pais em dose dupla.
Não sendo a gente que vai ter a incumbência de encaminhá-los no bom caminho, por que não desencaminhá-los? Deixar elezinhos cabularem aula para jogar futebol naquele campinho cambeta detrás da escola.
Seremos nós, os avôs, que vai presenteá-los com aquela bicicletinha de rodinhas amarelas. Ou com aquela patinete que perdeu o freio numa descida do morro. E com que esforço a gente, avôs de primeira viagem. Corremos a pernas corridas. E fomos nós os salvos, por aquele molequeinho travesso. Quando nosso netinho impediu a nossa queda. No momento trágico quando pensávamos que seria a nossa partida ao céu.
Nós, vôs e vós, quando pensamos que não servimos mais pra coisa nenhuma. Lá vem a nossa filhota. Viajora contumaz e consumida pelos ares nas asas dos aviões. E, em voz de súplica, nos implora: “paizinho. Por favor. Toma conta dos seus netinhos. Voltamos no mês que vem”.
E essa cena se repete diuturnamente. E lá vou eu, de mala sem cuia, dormir na casa dela. Esquecendo-me do conforto da minha.
Avôs se prestam a cada coisa. Não somos imprestáveis, embora muitos pensem que sim.
Cuidamos dos nossos netos. Esquecemo-nos, inclusive, de cuidar da gente.
Trocamos suas fraldas. Mas quem vai trocar as nossas?
Perdemos noites de sono contando historinhas aos nossos netinhos. Mas não tem quem as conte pra gente quando a gente não consegue dormir.
Nós, idosos, que perdemos a vaidade. Lá vai idade…
Chegamos a certo ponto que só queremos descansar. Mais um ledo engano.
No melhor do sono nosso netinho chora. Já que os pais estão ausentes, a quem cabe a ele ninar?
Mais uma serventia nossa. Das tantas que somos capazes de nos desdobrar em mais de mil sendo apenas dois.