Quando um não quer dois briga

Os motivos de uma separação são vários.

Incompatibilidade de gênios. Quando um é gênio e o outro nada inteligente.

Gostos díspares. Quando um gosta de goiaba com queijo e o segundo de marmelada com leite.

Profissões conflitantes. Quando um deles trabalha de noite e o outro á luz do dia. E quando o marido chega à casa cansado, com olheiras profundas, encontra a mulher fazendo serão com o padeiro madrugão.

Condições financeiras são um capitulo a parte. Já que o marido vem de família abastada. E a pobre mulher vem lá de baixo. E pensa um dia enricar. Gasta o que não pode e nem deve. E o pobre marido fica devendo até as cuecas. E perde o crédito na vizinhança. E passa a ser chamado de caloteiro. Pobre deles, fim da linha do casamento.  E ela passa a viver num convento.

A atividade sexual concorre para o final das núpcias. O que era bom azeda. O marido deseja e a esposa não quer mais. Vira pro lado e dorme. E ai começa a pendenga. O marido procura outra. A mulher descobre a prosa mole no celular e ai dele. A explicação não convence e a rusga vence a discórdia. Já que um dia a vaca liga. E o marido safadinho tenta explicar que foi o dono do lacticínio que ligou. Cala-te boca! Não tem mais jeito de remediar.

Culturas conflitantes. A única cultura que a esposa conhece é a roça de milho que um dia ela plantou. Já o marido, de educação finíssima, versado em seis idiomas, graduado em Harvard com doutorado em malandragens na escola da vida. Eles passam a falar em idiomas incomunicáveis. A mulher fala da vida dos outros. E o marido evita tais papos arrevesados.

Seu Juvêncio e dona Margarida nesse ano celebram bodas de diamante. Sessenta anos juntos pra mim parece uma eternidade.

Nem sei se vou chegar a essa idade. Ainda mais ao lado de uma mulher.

No começo tudo eram flores sem espinhos. Um caminho reto sem curvas ou subidas.

Tudo ia melhor, sem atropelos em seus caminhos.

Mas, assim que chegaram aos mais de trinta. Seu Juvêncio completou trinta e cinco e dona Margarida dois anos a menos. Começaram as discórdias. Elazinha gostava de cozinhar. Já ele de comer. Até ai tudo bem. Mas na hora de lavar a louça a quem ficava a tarefa? Seu Juvêncio dava a desculpa esfarrapada que tinha de ir trabalhar. Mas em verdade ia jogar conversa fora na mesa de um bar. Dona Margarida não perdoava a desfeita. Ficava de mal o dia inteiro. Nem na cama fazia as pazes.

Um vez chegado aos cinquenta as rusgas duplicaram. Seu Juvêncio dormia do lado direito. Acordava bem cedinho e ia ao banheiro. Dona Margarida era dorminhoca.  Ficava na cama até tarde e roncava como um capado gordo. A relação azedava. Quase virando queijo.

Seu Juvêncio, cansado da vida que levava, acabou desconjurando a relação. Na casa não tinha parança. Saia cedinho e voltava tarde da noite alta.

Eles dois não se aturavam mais. Era uma relação que não iria durar mais um aninho sequer.

Aí as discussões se acaloravam.  A separação se tornava iminente. Para não brigar Seu Juvêncio saía de casa. Mas dona Margarida, acostumada a não levar desaforo pra casa, ficava em casa brigando com as paredes.  Mas elas não revidavam. Ficavam caladas olhando a dona Margarida entrar em parafuso tentando fazer a porca entrar no chiqueiro.

Já chegando aos setenta os dois resolveram pela separação de corpos. De almas já haviam se separado faz um tempão.

E como separar os bens? Antes era meu bem chega pertinho de mim. Agora meu bem fica bem longe.

A casa ficou pra dona Margarida. Desde que ela lhe pagasse o aluguel de outra morada. O cão e o gato foi o pomo da discórdia. O gato iria ficar com a dona Margarida. O cachorro seria vendido para pagar as dívidas. Por sorte ambos eram aposentados. Cada um tinha a sua renda. Bem mixuruca segundo a declaração de bens.

Seu Juvêncio sentiu-se lesado em suas pretensões. Saiu de casa de mala sem cuia. Dona Margarida ficou com a maior parte dos bens. Já que ela se sentia o bem maior.

Foi ontem que me encontrei com seu Juvêncio. Ele foi curto e grosso na nossa prosa.

“E ai amigo Juvêncio? Parou as brigas? Está mais sossegado”?

Ele me respondeu meio contrariado.

“Que nada! Quando um não quer a briga fica pior. Agora a gente briga na justiça. Briga ruim, né!”

Não tive como discordar. Melhor ficar em casa a morar na rua, né?

 

 

 

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