Não vejo a hora

Ah! Não fossem os ponteiros dos relógios.

O tempo não passaria. Não envelheceríamos. As doenças ainda nem tomavam conta da gente.

Apenas uma gripinha ou outra. Coisas de crianças.

Só que não consigo me desvencilhar das horas. O tal relógio me faz refém dos seus ponteiros.

Que bom seria se eles andassem no sentido inverso. Retrocedessem ao invés de ir adiante.

Dezembro se avizinha. Hoje, vinte e sete de novembro, colhe mais um ano de vida meu querido irmão Fred. A ele meus sinceros votos de que essa data se perpetue indefinidamente. Só que mais uma vez o tal malfadado relógio não para. E não vejo a hora de abraçar meu irmão mais uma vez. Até que o tempo nos diga que é chegada à hora de nos afastarmos para sempre. E nos unirmos aos nossos amados pais num lugar indefinido. Espero ser lá no alto. Entre as nuvens que pouco se deixam ver. Na azulice do céu que no dia de hoje amanheceu ensolarado.

Mais uma vez não vejo a hora de ver meus queridos netinhos a brincarem comigo como foi na tarde de ontem na casa do Gael. Theo, Gael e Dom são como bálsamos aos meus sentidos conturbados. Netos são a continuação da gente. Sem eles a vida se torna insossa como bolo sem cobertura de chocolate. Sem o recheio de limão adocicado como minha avozinha fazia.

Dezembro se aproxima. Junto dele vem o dia sete. Data que celebro meus cumpleanos. São tantas velinhas que tenho de assoprar que temo provocar um incêndio na sala de visitas de minha casa.

Dantes, aos cinco anos, ou mais um cadinho, não via a hora de chegar o dia do Natal. Era a noite de véspera quando quase não pregava os olhos. Ávido por desembrulhar os presentes que debaixo daquele pinheirinho já mostrando sinais de secume meu nomezinho indicava que aquele era meu.

Pena mais uma vez que o tempo passarinha. Ele avoa como as asas dos passarinhos. E não vejo a hora, agora, que não mais sou menino, de chegar a noite de natal. Para vestir a roupa do bom velhinho.  Engrossar minha voz e murmurar Oh Oh várias vezes. Fazer de conta que venho do distante pólo norte. E me entalar numa chaminé de mentira. Para distribuir presentes aos meninos que um dia fui.

Não vejo a hora, no tempo presente, não para ganhar presentes. E sim para presentear as crianças que infelizmente não têm pais abençoados como foram os meus.

Não vejo a hora. Olhando os ponteiros que marcam horas. De chegar o dia do meu aniversário. Não para comemorar em família. E sim para celebrar outra efeméride. Quando o mundo inteiro vai estar em paz. Dia esse que as guerras não existam mais. E prepondere a concórdia entre todos os povos.

Nesse dia vinte e sete. Novembro quase se despedindo para entrar dezembro.

Dia em que meu irmão celebra seus quase setenta. Cinco a menos que os meus. Não vejo a hora de dizer-lhe saúde. Que seja feliz enquanto sua vida durar. Que venha logo para que eu possa estreitá-lo entre meus braços e dizer que bom ter você como irmão.

Não vejo a hora de fazer retroceder os ponteiros que marcam horas. Demovê-los da intenção de caminhar sempre em frente. Que pelo menos possa retardar-lhes o ímpeto e irem mais devagar. Para que eu possa comemorar mais anos de vida. Sem me preocupar com a voracidade das horas.

Não vejo a hora de o mundo suplicar pela paz. Como não vejo a hora do amor predominar entre os povos.

Antes, menos de vinte minutos, quando comecei esse texto, meu relógio assinalava menos de seis. Agora já são seis e meia. Como o tempo passa veloz.

Ah! Se eu pudesse controlar as horas a elas pediria uma trégua.

Que pelo menos pudéssemos conviver em harmonia pelo tempo que nos resta. Já que não sei quantos serão.

Não vejo a hora, abençoada, de dizer a vocês – feliz final de ano. Que se sintam felizes como eu tento ser.

 

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