Mania de doença, quem não as tem?
Tem gente que só pensa em adoecer. A saúde plena não lhe apraz nem faz bem.
Um simples resfriado não o satisfaz. Logo passa o dia inteiro tossindo. Debaixo de grossos cobertores. Sair da cama nem sonhando. Mede a temperatura de minuto a segundo. Que bom seria se ela subisse rapidinho e logo chegasse a uma pneumonia das grandes. Que afetasse não apenas o bom senso como os dois pulmões,
Como tem feito frio nesse começo de inverno. Piscinar nem em pensamento. Tomar banho só em água fervendo. Mesmo assim não sempre a cada dia. Aos sábados merecemos um banho rápido, lavando as orelhas e deixando o resto do corpo ensaboado sendo enxugado na toalha felpuda que nos espera ansiosa para nos agasalhar por inteiro.
Mania de doenças. Como isso tem sido observado na minha lida diuturna na medicina nesses mais de cinquenta anos de observação atenta.
Doenças de cunho fantasioso têm sido uma das mais frequentes.
De vez em quando aparece por aqui um jovem que se queixa de inadequação sexual. Antes conhecida por impotência. Ao fazer nele um exame minucioso nada encontrei que fosse responsável, do ponto de vista anatômico ou qualquer que fosse, por aquela falha na hora da verdade. Na anamnese acabei por tirar daquele rapazola nada mais que nada menos uma coisinha chamada ansiedade. Que se torna a causa maior de sua ejaculação prematura. Rápida como um raio que risca o céu numa chuvarada raivosa.
Noutro dia aqui apareceu a dona Odete.
Uma senhora de muitos anos e incontáveis queixumes.
Ela tirou da bolsa que trazia a tira colo uma lista imensa. Para não se esquecer de nenhuma.
A lista começava desse jeito e não tinha fim.
“Doutor. Sinto uma dor desse lado. Esse lado aqui dói sem parar. O outro também lhe segue o exemplo. Não para de doer nem um cadinho. Já tive pedras nos rins. Não sei se a dor é do rim ou da coluna. A minha barriga anda crescida. O que seria meu bom doutor? Já tomei todo tipo de remedinho para vermes. E de nada adiantou. De tempos pra cá não tenho dormido direito. Meu marido fala que eu ronco. Não sei pois estou dormindo. Ah! Antes que eu me esqueça meu pé direito anda meio inchado. O esquerdo também. Rindo ela ainda disse: ainda bem que tenho os dois. Doutor, de tempos pra cá não tenho fome. Melhor né? Estou meio gorda e preciso fazer dieta”.
A lista ainda estava começando. Faltava mais da metade a ser lida e por mim digerida.
Já se passaram mais de duas horas do começo da consulta. Pobre de mim…
E ela continuou sua ladainha. Que mais parecia uma palestra sem fim nem começo.
“Doutor. Sinto uma falta de vontade de não sei o quê. Ando meio esquecida. Acordo sem saber que dia é hoje. Durmo pensando com qual médico vou me consultar. Amanheçe e acabo esquecendo. O senhor tem um remedinho para melhorar minha memória? Ah! Ia me esquecendo do pior. Minhas duas pernas andam juntinhas. Seria isso um defeito ou coisa normal? O pior acontece com meu joelho direito. Na hora de ajoelhar na missa e quando me levanto é um Deus me acuda. E o esquerdo também não ajuda. Já tive catapora e varicela. Tenho medo de elas voltarem. Ah doutor. O senhor conhece um bom cirurgião plástico? Que opera pelo meu plano de saúde? Preciso esticar minhas pelancas. Desculpa se o tenho importunado com minha lista de doenças. Mas o senhor é tão bonzinho e escuta tudo caladinho. O que o senhor acha da minha saúde? Não estou tão mal assim né”?
Ao final daquelas três horas intermináveis despedi-me da dona Odete rabiscando no meu receituário umas palavras de conforto, pra mim.
“Minha querida dona Odete. A senhora, tá hora de ir embora, vai com Deus. Em boa hora”.
Ainda melhor que era o último paciente daquele dia infeliz. Já em casa sentia de tudo um cadinho. Pensei em me consultar comigo mesmo. Ainda bem que a dor passou e desisti.