Pensar demais cansa

Assim acontece comigo.

Em plena madrugada pensamentos me assediam.

Já acordado eles avoam ao longe. Creio não serem sonhos. Já que estou de olhos abertos.

Penso em muitas coisas. Lembro-me de fatos acontecidos na semana que se despede. Povoam-me os pensamentos temas que serão escritos.

Se pudesse por freios nos meus pensamentos assim o faria. Mas eles não se deixam encabrestar. Saem ao menor descuido de dentro de mim.

Dai tenho uma certa repulsa ao pensar demais. Pensamentos sem freios são como cavalos xucros que não se deixam montar.

E de fato pensar demais me cansa. Não tenho um minuto sequer de paz pensando tanto.

Felizmente,  ao acordar bem cedinho, peço uma trégua aos meus pensamentos e me animo a sair de casa. A hora é sempre a costumeira. Por volta da volta das cinco e meia.

Tenho um amigo, conhecido por Firmino, que nunca  quis nada com o trabalho. Coleciona, nos seus muitos anos, já beirando os mais de setenta. Mais de infindáveis  horas entregue a doce arte de nada fazer.

Não sei do que ele vive. Sei sim que ele convive com o ócio desde a maior idade. Sei que sua amada tia solteirona e aposentada o sustenta. Firmino desfruta das benesses de sua tia. Mora na casa dela. Come o que ela põe na mesa. Veste-se com esmero graças às roupas semi novas de um tio já falecido.

De  vez em quando nos encontramos. Eu sempre apressado e ele entregue a boa vida de sempre.

Foi na semana passada que nos demos de olhos. Estava eu caminhando de volta do hospital quando ouvi uma vozinha velha conhecida do outro lado da rua.

“Doutor. Estou aqui. Seu amigo Firmino. Não se recorda da minha pessoa? O senhor me operou de fimose quando eu tinha dezoito anos.  Dei um trabalhão naquela ocasião. O senhor me chamou as falas me pedindo que me comportasse e não levantasse as pernas. E a anestesia terminou antes do previsto. Mas deu tudo certo. A operação foi um sucesso. Faço bom uso da minha ferramenta de trabalho até nos dias de hoje. Achegue-se a mim”.

Não tive  como recusar o estrepitoso convite. Ele estava em plena rua vociferando em alta voz.

Atravessei a rua quando o sinal  me foi conveniente. Entramos numa bodega famosa pelos tira-gostos e cerveja bem gelada. Firmino, velho conhecido por ali, prometeu pagar a conta. Não me fiz de rogado e acabei aceitando.

Que prosa ruim ele era. Era um verdadeiro esvazia banco na cidade. Só contava vantagens e  suas mentiras espalhavam-se  como papel ao vento.

Não podendo recusar-lhe o gentil  oferecimento acabei por me assentar junto dele.

Para não fazer desfeita disse-lhe que me lembrava sim da operação feita há tantos anos. Embora não me ocorresse tal fato.

“ Doutor. O senhor ainda está na ativa? Já faz tanto tempo que o conheço.  Parece-me que temos quase a mesma idade, não é? Eu tenho setenta exatos. Completei no ano passado. E quantos anos o senhor tem?”

Pensei cá comigo. Anus com u um só. De idade ajuntei setenta e cinco. Mas não falei com ele, pois bem sabia da sua fama de prosa ruim.

“ Firmino. Você está muito bem. Nem parece a idade que tem. O que tens feito? Ainda está na lida? Ou já se aposentou”?

Nisso a garçonete aproximou-se de nossa mesa e perguntou se podia trazer a conta. Tínhamos bebido meia dúzia de cervejas e uma porção de torresmo com mandioca frita.

Notei um certo mal estar na cara do Firmino. Ele não tinha um tostão furado no bolso. Apesar de meu sobrenome ser Abreu não pude falar que se não pagar nem eu. E acabei pagando a dolorosa.

Quando me despedi do até então desconhecido amigo. Que se apresentava como Firmino. Para não perder a sua recente amizade. Agradeci o amável convite, embora tenha sido eu quem pagou. Sabedor que ele nunca quis nada com  o trabalho. Assim me despedi dele.

“ É amigo, já estou cansado de trabalhar.  Pensar e trabalhar muito cansa. E você, pensa desse jeito”?

Firmino, com aquele sorrisão desdentado. Com um abraço apertado respondeu-me desse jeitinho: “ nem um nem outro. Não tenho o costume de trabalhar e nem de pensar. Por isso não me canso.”

Fui embora pensando na minha vida. Talvez seja melhor assim; não pensar tanto e trabalhar menos…

 

 

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