O segredo da longevidade do Seu Juca

Pra mim o melhor seria morrer de velho, em pleno sono, com a saúde perfeita.

Mas quem somos nós para vaticinar como seria a nossa morte?

Sabe-se que ela vem, num dia quando menos se espera.

Sabe-se ainda que a morte não manda recado nem se anuncia. Inesperadamente ela chega.  De mansinho ou atabalhoadamente. Bem ou mal acompanhada de sofrimento. Causando comoção aqueles que gostavam da gente. Mas logo seremos esquecidos já que não se vive eternamente. E outros irão ocupar nosso lugar. E as lágrimas secam depois de escorrerem lépidas pela nossa face.

Mas como retardar nossa despedida? Como viver mais um cadinho nessa vida que um dia se torna finita?

Pra muitos a morte vem como um bálsamo que atenua nossas dores. Pra outros ela se antecipa. Como dói ver um pai sepultando um filho. A ordem natural das coisa seria o reverso da medalha.

Já vivi o bastante e pretendo viver muitos anos mais.

Tendo encompridar minha vida não tendo parança. Melhor não parar nunca de caminhar. Exercito-me diuturnamente. Tanto meu corpo como meu cérebro irrequieto. Tento não me dar um descanso. Já que tenho a eternidade para descansar.

Pra mim o segredo de atingir maior idade, em plena forma. Sem que as doenças nos façam curvar ao seu peso. É não deixar pra depois o que deve ser feito nessa hora. Acorde bem cedinho. Deixe a cama entregue aos travesseiros. Lave seu rosto sonolento n’água fria da pia do banheiro.  Tome seu desjejum farto sem exageros. E saia a rua usando o que tem ainda de melhor- as pernas, antes que elas claudiquem.

Meu amigo Juca. Que na semana passada colheu mais uma primavera. Acrescentando mais um ano aos seus mais de noventa.

Ele nem parece a idade que tem. Sem rugas, uma vasta cabeleira despenca pelos seus ombros fortes. Olhos vivos que enxergam mais que deveriam. E as pernas? São dois portentosos artefatos que são usados e abusados na sua lida diária.

Seu Juca nem se lembra de quando procurou ajuda médica. “Tenho saúde a dar ou emprestar aos outros. Remédio? Não sei quando tomei o último. Se estou resfriado espero o tempo melhorar. Andar sim, tenho por hábito desde mais novo. Pra que tirar o carro da garagem? Deixa ele lá. Tem gente que, pra ir à padaria da esquina usa o carro. Pode levar uma multa por estacionar em local proibido. Coisa que não economizo são as pernas. Pernas pra que as quero juntinhas a mim”.

Um dia desses, não sei se foi na semana passada ou noutra qualquer. Dei de cara com meu amigo Juca. Ele estava caminhando na praça no entorno do jardim. Era ainda bem cedo. Se não me falham os ponteiros do relógio por volta das cinco e meia da manhã. Estava bem frio. Não se via vivalma naquele logradouro de muito movimento no mais tardar das horas.

Seu Juca estava na sua duodécima volta. Uns bons quilômetros suas canelas finas já tinham percorrido.

Interpelei-o quando ele se preparava para terminar a caminhada. Ele nem se queixava de cansaço.

Assentamo-nos a um banco da praça. Seu Juca tomou um belo gole d’água fria.

Respirou fundo e abaixou-se até o chão duro da pracinha. Que coluna elástica ele tinha. A minha só de ver sofreu um estiramento.

Impressionado com sua vitalidade. Já tendo mais que dobrado a serra. Com seus mais de noventa anos bem vividos em plena saúde.

Tive a curiosidade de a ele perguntar: “amigo Juca. Como você chegou a essa idade tão bem disposto? Não é fácil”…

Ele simplesmente olhou pra mim e respondeu: “não deixe a morte chegar antes.”

Deixei meu amigo pensando como ele. Pra bem entendedor meia palavra basta.

 

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