Nos tempos idos pensava acumular bens e fortuna.
Ávido por ganhar dinheiro aqui cheguei com a cabeça povoada de sonhos.
Não tinha noites de sono. Desdobrava-me em dez sendo apenas e tão somente um.
Fazia todo o tipo de concursos. Ia de emprego a outro sem tempo de pensar em descanso.
Minha conta bancária engordava como um capado gordo prestes a ser sapecado, cozido e comido por muitas bocas famintas. Não tinha parança, vivia enfiado em plantões intermináveis de hospital a outro.
Bons tempos aqueles de começo da minha lida de médico. Fui um inovador na minha região na minha especialidade urologia. Introduzi na minha cidade a cirurgia de próstata sem maiores incisões.
Tive sucesso em muitas operações. Já outras resultaram em fracassos tudo aquilo feito com as melhores das intenções.
Minha agenda sempre cheia não tinha horas para chegar a casa. Pela manhã operava. À tarde desdobrava horas entre o atendimento na minha clinica com os diversos empregos acumulados.
Minha ambição não tinha medida. Em primeiro lugar construí minha casa. Era uma casa enorme com mais quartos e salas que precisava. Ali quase não parava. O trabalho me consumia. E meus ganhos eram mais que suficientes para a minha precisão.
Fui envelhecendo. Ganhando anos. Deixei a mocidade pra trás.
De repente senti-me cansado. Precisava de um descanso. Felizmente outros colegas de especialidade uniram-se a mim. Reparti meus ganhos. Refreei meu ímpeto. Foi melhor assim.
Já hoje, tantos anos se foram, olhando pelo retrovisor da minha vida. Valeu a pena tanto esforço e dedicação? Ou nem tanto.
Se voltasse atrás, faria a mesma coisa? Iria de emprego a emprego? Perderia noites de sono acordando sempre que intimado pelo telefone quando me chamavam do hospital?
Hoje me dou por satisfeito sim. Valeu a pena tudo isso.
Já meu amigo Felisberto. Que vive e sobrevive numa rocinha aqui perto. E sozinho cuida de duas dezenas de vacas mestiças. Faz queijo com o leite que elas dão. Um dia me disse não ter ambição.
Sente-se mais que satisfeito com tudo aquilo que conquistou. Bem pouquinho ele não se queixa. Vive feliz e sorridente na sua banguelice desdentada. Tem saúde a dar aos outros. Dorme como um anjinho de asas cortadas sem saber voar. Não se preocupa com o dia seguinte. O que Deus me der tá mais que bom.
Um dia nos encontramos. Tinha comprado uma fazenda ao lado da sua roça. Era uma gleba de terras a se perder de vista.
Felisberto, sempre de sorriso aberto., assentado a sombra de uma amoreira, pitava um paiero apagado.
Eu, sempre apressado, ia de um lado pro outro, procurando saber que hora era aquela.
Estava atrasado para voltar à cidade. A pressa me consumia. Pacientes impacientes me esperavam no consultório.
Já meu vizinho de pasto, com quem dividia cercas, cochilava à sombra da velha amoreira.
Parei um cadinho do lado dele. Manifestei-lhe a minha pressa. Tinha muita coisa a fazer na cidade.
Uma vez acordado do seu cochilo gostoso, Felisberto assim me falou sossegada mente.
“Pra que tudo isso meu amigo. calma, respire, dessa vida não leva nada. Fica tudo aqui e você vai embora”.
E eu fui embora, pensando em me aquietar mais um cadinho.
Dessa vida não se leva nada. E a outra? Será que ela existe?