Seu Justino não aguentava mais a rotina
Era o mesmo acordar bem cedinho. Lavar a cara num balde d’água fria. Tomar seu cafezinho, meio morno, não tão frio nem escaldante de quente. Deixar sua casinha modesta antes que o galo cantasse. E a coruja desempoleirasse do cupim morto. Como ele se sentia depois de tantos anos no trabalho duro na roça. Ganhando um salário mínimo. Quantia que não subia há tempos idos. E elezinho, quando atingiu certa idade, ultrapassando seus quase oitenta. Jurou que iria mudar de vida.
Essa vida não tinha graça. Era uma desgraça só. Ele envelhecia sem sentir o sabor da vida. Não tirava férias desde seus vinte anos. O patrão, sovina, economizava até no papel higiênico. Não lavava as mãos para não gastar a toalha. E não dormia para economizar o sono.
Seu Justino era um senhor correto. Aguentava os trancos da vida sem se queixar. Mas tudo tinha seu limite. Era chegada a hora de mudar de vida. Até então não sabia o que seria desfrutar de momentos de ócio. Ficar à atoa olhando pro alto. Dormir um soninho pra lá de gostoso sem ser preciso escutar o ruído ruidoso do despertador.
Mas quem diz que o trabalho lhe dava tréguas? Era acordar e ir trabalhar. Não havia sequer um dia de descanso. Sábados e domingos eram sempre os mesmos. Feriados só na folhinha eram assinalados.
O seu aniversário, quando ele completou oitenta anos, passou esquecido. Não houve festa nem bolo cheio de velhinhas. Não houveram presentes nem convidados. Mais uma noite passada em branco embora fosse bem escura.
Aquele senhor não suportava mais sua rotina. Sonhava em mudar de vida. Quem sabe no ano vindouro seria possível passar uns dias de férias numa praia isolada do mundo? Cercado de coqueiros, que, a um simples alçar de mãos um coco maduro seria despejado por inteiro dando conta de saciar sua sede. Uma sede intensa não de um liquido qualquer. E sim uma sede de uma vida distinta daquela que estava acostumado nos seus muitos anos de vida produtiva. Afinal já havia passado da hora de se aposentar.
Mas ele, com seu salário de fome, com aquele patrão perdulário que só lhe oferecia serviço, apenas sonhava com dias melhores.
Agonizava lentamente. Não se dava um instante para conversar com as estrelas. Um momento de paz na sua vida atribulada.
Seu Justino, justamente na data do seu aniversário, que desabou no dia de hoje, vinte e quatro de julho, sentiu uma dor profunda dentro do peito. Estava prestes a acordar. Era a mesma hora costumeira. Cinco e meia da manhã. Lá fora chovia. Fazia um certo frio. Não havia ninguém para socorrê-lo, pois morava só.
E o hospital mais próximo ficava distante. Seu Justino suava frio, empalidecia. Agonizava lentamente no seu leito de morte.
Não havia ninguém ao seu lado.
Ele foi encontrado dois dias depois mortinho da silva. Embora seu sobre fosse Pereira.
Seu patrão nem se apiedou do seu empregado de tantos natais passados. E ainda disse, entre dentes raivosos, não demonstrando nenhum afeto por aquela pessoinha boa: “esse bode velho continua me dando trabalho. Não serei eu que vai levar seus restos mortais ao cemitério”.
Um dia passei perto de sua última morada. E pensei cá comigo. É isso aí. Vivemos para o trabalho. Quase não temos tempo para o descanso. Somos em verdade, depois de certa idade, bodes velhos que agonizam e quando nos despedimos da vida quase ninguém se lembra da gente.