O tempo apaga nossas memórias

O que faz o tempo com a gente.

Ele não nos deixa desenvelhecer. Conspira contra o escuro dos nossos cabelos. Contra nossos passos rápidos. E os torna trôpegos. Faz embranquecer nossa barba. Que, se não a tiramos confundem-nos com o Papai Noel. Faz da gente, idosos ou provectos, um traste inútil a ser jogado fora como um sapato que não da mais meia sola.

Mas nossas lembranças ainda permanecem na nossa memória. Indelevelmente guardadas num baú de guardados o qual só a gente sabe onde fica a chave do cadeado.

Na velhice a gente não guarda segredos. Nem aquele segredinho nanico que apenas a nossa velhinha conhece. Cito e exemplifico: onde a gente deixou a nossa dentadura? A nossa velhinha, não caduquinha como o seu maridão bonachão. Sabe de cor e de salto baixo onde a gente deixou nossa prótese dentária e responde malcriada ao seu velhinho gabola que não mais da bola pra elazinha e sim pra outras mocinhas de bundas arrebitadas. “Meu veio, vês se te lembras. Vosmecê guardou sua dentadura que solta porque você não usa Corega. Esquecida dentro de um copo cheio d’água. Ela afundou, pois não sabia nadar. Agora você tem de voltar ao dentista a fim de encomendar outra novinha. E eu, veinha vou ter de escolher um garotão parrudo, pois você não mais da conta de rosetar.

O tempo faz um papel como se fosse um apagador. Ele não apaga dores. Mas faz com que a gente tolere mais o sofrimento dizendo ser a dor inevitável. E o sofrimento opcional.

Não há como deter o tempo. Comecei esse texto antes das dezessete horas. Agora são dezessete mais três.

Inda me lembro de quando aqui cheguei. Foi em meados de um mil novecentos e setenta e sete, vindo da Espanha sem ver as touradas de Madri.

Quarenta e nove anos perfazem nesse dois mil e vinte e seis. É isso mesmo? Perco-me entre os números e me acho entre as palavras.

Gente do meu tempo ainda se lembra de mim. Os mais novinhos me puseram no esquecimento.

De tempos pra cá passei a bulir com as pessoas. Não sei o porquê nem quero saber.

Foi agora há pouco o acontecido.

Fui a uma farmácia comprar a tal Malthodextrina a qual estava acostumado a tomar, misturada a duas bananas e leite até encher um liquidificador.

Ali chegando mostrei o produto a um farmacêutico.  E a ele perguntei: “você pode me indicar um urologista de confiança aqui na minha cidade? Alguém que possa tratar a minha próstata aumentada”?

O jovem coçou a cabeça, revirou seus neurônios e a mim respondeu: “ah sim, tem tal fulano de tal que já consultei com ele, mas já morreu”.

Nesse ínterim abri meu site- paulorodarte.com.

O rapaz arregalou as olheiras, espantando com minha pessoa. E disse que não tinha o prazer de me conhecer.  Mostrei a ele que ainda era escritor. De quebra sem me quebrar ao pagar a conta.

De passagem pela Santa Casa. Onde dei o melhor de mim e ainda darei quando de mim precisarem. E fiz outra pergunta ao amável porteiro da portaria: “o doutor Paulo Rodarte está ai? Estaria por acaso de plantão?

Ele olhou pelo computador. Pesquisou os médicos da casa. E por fim não me respondeu nem que sim nem que não.

Mais uma vez abri meu site no meu celular.

“Ah! É o senhor? Desculpa, não te conhecia.”

Voltei ao meu apartamento pensando com as minhas memórias.

O tempo as apaga com uma borracha que não permite voltar a vê-las novamente.

Da pena…

 

 

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