Quantas dezenas de vezes, em noites escuras enluaradas. Na minha rocinha, de lanterna empunhada. Percorria nas noites escuras a procura daquelas luzinhas piscantes emersas das bundinhas dos pirilampos, aqueles parentes dos besourinhos. Que fazem tlec tlec quando são apanhados em fragrante em atitude suspeita de acasalamento com suas pirilampazinhas. De repente encontrava um deles. Dois era por sorte minha. Aprisionava o casal numa caixinha pequenininha. Levava-os a minha casa avarandada. Abria o tampo da caixinha nessa noite do nosso encontro. Ao deixar a pequena caixa entreaberta a vagalumazinha me dizia assustadinha: “por favor, meu bom doutor. Deixe-nos livres para fazermos amor. Eu e meu pirilampo só temos uma ambição na nossa vidinha bem curtinha. Repovoar esse mundão de vagalumes para que as noites escuras na roça não percam o encantamento”.
Naquele mágico momento soltei de pronto o casal de vagalumes. E dei de presente a eles pilhas novas para não faltar luz nas suas baterias.
A vida é a arte dos encontros apesar de haverem tantos desencontros vida afora.
Num dia a gente perde alguma coisa. Noutro acabamos por encontrar aquela coisa perdida.
Já estive perdidamente apaixonado por aquela menina. Quiseram os anos que nós dois envelhecemos. Aquela paixão doentia agora se encontra em banho maria.
Nem muito quente nem fria ao extremo.
Nunca fui de me apoquentar com as doenças. Médicos então só procuro em extrema necessidade.
Já passei da idade de fazer o tal exame que muitos consideram invasivo e um tanto pecaminoso. Mas confesso, como especialista praticante do dedo diletante: a partir dos quarenta e cinco devemos procurar um urologista. O toque é feito sem ser preciso retocar a maquiagem e não dura mais que um farfalhar de asas de um beija flor. Não dói nem tira pedaços. E nem carece olhar para o tamanho do dedo do examinador.
Quando se procura muito as doenças elas aparecem sem serem convidadas.
Tenho um compadre e amigo. Seu Joaquim traz de berço a mania de doenças.
Em meninozinho ainda deixou a sua pediatra lucubrando em se internar num manicômio.
A sua preocupada mãezinha não deixava a coitadinha dormir sossegadinha. Ligava pra ela a noite inteira. E nem pagava pela nova consulta dizendo ser retorno.
já velho, decrépito, deixando de ser adulto, seu Joaquim teimava comigo em fazer exames que pra mim não eram necessários. Mas seu plano de saúde permitia tais extravagâncias.
Num dia ele fazia ressonância magnética do dedão do pé não inchado. E no exame apareceu bicho de pé não previsto.
Noutro me pedia para pedir um exame de ultra som da barriga que nada tinha. E não é que o tal deu inflamação no olho esquerdo? Salve-nos daquele serviço de imagem que foi lacrado pela vigilância sanitária por estar iludindo os fregueses.
Foi um dia desses o sucedido recheado de insucessos.
Seu Joaquim aqui esteve na manhã de trás anteontem, manhoso como soi ele só.
Queria por que desejava fazer exame de tudo um cadinho.
“Quero fazer um cheque up”. E nem assinou o tal cheque que por sinal não tinha fundos.
Euzinho, educadamente, para não melindrar o consultante, tentei corrigir o cheque trocando-o por check-up. Mas ele não entendeu e saiu da minha sala cuspindo abelhas abelhudas.
Vem de ai a minha conduta como médico especialista numa lista enorme de concorrentes.
Quem procura acaba encontrando. Doenças então são encontradas quando menos se espera.