Dizem, com acerto e propriedade – quem espera cansa. Mas eu não me canso de esperar mais um livro nascer. Afinal são mais de vinte filhos livros que ajudei a conhecer o mundo. Com suas letrinhas miúdas formadoras de palavras. Que se alinharam em parágrafos, página por página. Até formarem mais esse livro.
Sempre me identifiquei com pessoas simples, gente da roça e de mãos cascorentas como as de um pedreiro ou de um obreiro qualquer. Basta que eles tenham gosto de ler. Escrever é mais difícil, pois se trata de um dom ou talento que, ou se herda de berço ou se adquire anos depois.
No meu caso isso se deu há inexatos vinte e um anos atrás. Dia de noite quando meu pai morreu. O nome da minha primeira crônica foi em honra e glória dele – Réquiem a um pai sem limites. Depois dessa não parei mais.
Identifico-me com a singeleza do singelo. Não me aprazem aqueles metidos a importantes. Que pensam ter um rei na barrigona obesa. Os que desfazem dos menos favorecidos. Dos menos aquinhoados pela sorte na vida.
A gente, de onde menos esperamos vem coisas boas. As ruins aparecem daqueles que deveriam nos brindar com mais tranquilidade, decência e idoneidade moral. Assim aprendi nesses meus setenta e seis. E continuo aprendendo no decorrer da minha existência.
Antes da edição de mais um livro tento vender alguns exemplares encalhados dentro da minha pasta que sempre me acompanha nas minhas andanças e correlanças. Não é fácil vender livros. Disse-me alguém, de minha inteira confiança, isso: “Paulo. Hoje ninguém compra livros”. Mas exceções existem por ai e por aqui.
Foi o acontecido na manhã de hoje. Nessa sexta feira que antecede mais um sábado.
Estava levando um pintor amigo na minha caminhonete a um condomínio onde minha filha mora junto ao seu marido e meus dois netinhos.
Ele, de nome Clodoaldo, estava dando acabamento na linda casa do meu amigo pai do meu genro. Fazendeiro de verdade. Não como eu sou metido a roceiro de final de semana mal sabendo dizer o porquê de o leite ser branco emerso de uma vaca preta.
Ali, naquela construção quase ao seu final. Ao entregar o Clodoaldo pintor as paredes ainda sem tinta. Encontrei um rapaz parrudo assentado a uma mesa improvisada numa tábua equilibrada em cavaletes de madeira. Ele admirava uma planta de casa com seus olhos atentos. Era o mestre de obras daquela obra em final de obra. Um obreiro que já foi pedreiro e talvez servente com muita serventia.
Assim que me apresentei pelo meu site – paulorodarte.com. Ele, meio incrédulo na minha crendice. Disse-me: “doutor. Quero comprar seus livros.”
Naquele momento exato fui a minha caminhonete arrumadinha pelo mecânico irmão do Clodoaldo. Levei aos ombros a minha pasta devoradora de livros. E dela retirei um exemplar de Rakel e outro da minha coletânea de crônicas Leia com meus olhos.
Juliano, obreiro de Perdões, terra da minha saudosa mãe e outros Alvarengas. Na mesma hora ficou com os dois exemplares. Um exemplo de pessoa que bem exemplifica o titulo.
“De onde a gente menos espera vem coisas boas”.