A casa vazia que chorava

Ainda me lembro de quando ela foi construída.

Tijolo por outro igual. Janelas de madeira de lei cada uma delas tinta em azul escuro. Até hoje resistentes a morada de cupins ou similares. Telhas de dimensões exatas para cobrir o telhado.  O madeiramento todo foi retirado do mesmo lugar de onde estavam as telhas. Janelas de ferro batido também fazem parte dessa casa edificada há mais de cinquenta anos no mesmo lugar. Nesse recanto aprazível onde fica a minha rocinha.

Nessa mesma casa, onde passava noites solitário, quando ali dormia sozinho. Quantas vezes, durante as madrugadas, perdia o sono, em noites escuras, parcamente iluminadas pela luz da lua. Vagava a esmo pelas estradas poeirentas ou barrentas. Admirando o pisca pisca frenético dos vagalumes. Ainda me povoam as lembranças daquele dia. Quando, a beira da estrada, numa subida íngreme, deparei-me com duas luzinhas acesas. Apanhei o casal de pirilampos entre minhas duas mãos em concha. Eram dois vagalumezinhos em cópula. Não sei se namoradinhos ou já casados. Tranquei-os numa caixinha de fósforo. Tendo o cuidado de deixar parcialmente aberta a tampa para que eles dois respirassem o ar fresco da noite. Já na minha casa, hoje vazia. Na murada do alpendre deixei a caixinha de fósforo com o casal de vagalumes ali depositada. Abri novamente a caixinha para deixar os enamorados livres e soltos. Foi quando um deles, não sei se a vaga luma ou seu macho. Acendeu a luzinha que trazia no traseiro. E me agradeceu a fidalguia piscando a luzinha: “meu bom doutor Paulo Rodarte. Sei que o senhor, além de bom médico é escritor. Por gentileza. Retrate a nossa caminhada pelas estradas nessa noite escura. Foi um prazer conhecer sua senhoria”.

Essa minha casa serviu de morada ao meu amigo arrendador das minhas terras de nome Roberto e sua amada família. Por mais de doze anos eles ali moraram. Ela foi cenário do meu romance A Moça Alegre do Sorriso Triste – Madest.

Na semana que o calendário engoliu fiz uma breve visita a minha casa.  O fogão a lenha não crepitava nem cuspia fumaça. A despensa vazia nem me disse adeus. Uma suíte feita anos depois, onde meu amigo Betão dormia junto a sua amada esposa, ignorou a minha entrada.  A salinha interligada à cozinha, onde a família do meu amigo assistia à televisão, quando o tempo permitia, nem me convidou a assentar. Aquele corredorzinho nanico, por onde passava apressado quando ia ao banheiro. Com suas paredes tintas de saudades. Acabou por esquecer quem eu era. O banheirinho modesto, com uma pia de cor rosa claro, um chuveiro onde raras vezes tomei banho, me deram votos de vida longa e saudável. Os três quartos remanescentes; o maior deles onde passei parcas noites pensando na vida e nas agruras da boa gente da roça. Da mesma maneira nem se despediu de mim.

Saí daquela casa, agora vazia, pela porta da frente. A grade, retirada inteira da casa do meu avozinho Rodartino Rodarte e da minha vozinha Belica, com suas colunas retas.  Senti umas gotas salinas escorrendo graciosamente de dentro daquela casa vazia de gente, mas repleta de saudades.

Os vetustos lampiões apagados não deram conta de apagar minha nostalgia.

Aquela casa, agora vazia, chorava copiosamente.

E eu acabei chorando junto…

 

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