“Pena mãezinha… O mundo não se entende mais.”

Joãozinho, aquele menino bonzinho, que morava naquela rocinha erma.  Cuja lonjura da cidade distava alguns metros e mucados de léguas bem medidas. Ele e sua mãezinha querida. Já que o pai agora se fazia ausente. Morto e enterrado debaixo do pé de bananeira que já deu cacho.  Vivia apoquentado com as noticias que escorriam em bicas pela mídia tais e quais cascatas copiosas em dias de chuva forte.  Na televisão, ou em seu radinho de pilhas que falava rouco. O assunto não era outro senão guerras que não tinham fim. Em mortes pelas enchentes e deslizamento de terras. Em invasões que terminavam em conflitos e barricadas que os invadidos interpunham nas suas ruas para tentar coibir a entrada da policia.

O pobre e infeliz menino não tinha sossego. Nem na escola aprendia as lições. Imaginava que um drone suicida iria lançar bombas sobre a sua vaquinha Braúna, pela qual tinha o maior apreço. Ou que um jato desgovernado, sem governo confiável como em nosso amado Brasil, cairia sobre sua plantação de milho prestes a dar espigas já embonecadas.  Ou pior ainda, se é que existe coisa pior. Uma granada seria lançada no seu galinheiro dizimando todas as galinhas. Mesmo aquela que botava ovos de puro ouro. Uma verdadeira jóia não bijuteria.

Em meio aquela situação catastrófica do mundo ao derredor Joãozinho temia mal maior.

Na sua rocinha pequenininha, daquelas que quando uma vaca deita deixa o rabo de fora na propriedade do vizinho arreliento.   O único conflito que existe por aquelas bandas é quando a mulher do vizinho se engraça e passa a fazer gracinhas com o coronel mal apessoado e rico de dindim. Diga-se dinheiro ou grana para me fazer melhor entender. Ou se um velhaco safado afana uma manga madura na horta do seu Onofre. Aquele senhor mão de vaca que não abre a dita cuja nem para cumprimentar seu melhor amigo. Ou quando a melhor vaca do curral, posta a venda. O astuto do seu dono a passa a outro vizinho. E diz, com aquele sorriso de jacaré engolindo a saborosa gazela abrindo a bocarra cheinha de dentes. “Olha meu amigo. Pode comprar a Gostosura. Nas duas ordenhas ela produz cem litros de leite frio”. Só que, para enganar trouxas ele deixa a Gostosona sem tirar leite por duas semanas e enche o bucho dela com duzentos quilos de ração. Quando ela é levada ao outro curral mal enche um balde pela metade. Ai da confusão. Vira um ringue de luta livre. Ainda me lembro quando o compadre Mané foi nocauteado. De tão bêbado caiu fora do chiqueiro e pensou que uma linda porcona era a sua dama. Deu-lhe um beijo na sua bocona e acabou por engolir a dentadura.

O garoto Joãozinho cresceu apenas um cadiquinho nanico. Não passou da altura de metro e menos de mucado. Mal sabia ele das amarguras do mundo ao redor. Sabia sim que ele girava. Que as estações do ano eram quatro- primavera, verão, outono e inverno. Desconhecia o porquê de tanta porcariada. Qual seria o motivo desmotivado, na cabecinha sonhadora daquele meninozinho. Que as guerras aconteciam. Que a violência era uma triste realidade nos grandes centros urbanos. Que gente da prateleira de cima, maioria naquelas cercanias sem cercas de divisas, era raridade nas cidades.

A cada manhã ele perguntava a sua mãezinha. “Mãezinha querida. Por que o mundo que nos rodeia cada vez mais não se entende? Por que tantas guerras e bombardeios? Por que tantas mortes e gente inocente pagando o que não deve? Por quê? Desculpa eu perguntar tanto. Qual a razão de tantas diferenças de classes e de costumes. Uns esbanjam riqueza e a maioria mal tem o que comer”.

Dona Aurora, mãe de outra hora já que não era a sua mãe verdadeira. Sábia senhora ao Joãozinho respondia.

“É meu amado filho. O mundo tem essas cores e tonalidades. Imagina se tudo fosse do mesmo jeitinho. Todas as pessoas amáveis e gentis. Todas se vestissem com as mesmas roupagens. Não existiriam ladrões e só pessoas do bem. Não existiria maldade e somente coisas boas. Ninguém dormiria ao relento e todos teriam moradias confortáveis. O mundo talvez não fosse um lugar tão melhor pra se viver. Daí, meu filhinho querido. Torna-se preciso conviver em meio a esses contrastes. Eles conferem toda a beleza desse nosso mundo. Abra seus olhos às coisas boas e belas. Mas não deixe de lado aquelas sem brilho que podem ofuscar-lhe a visão”.

A partir daquela sábia lição Joãozinho passou a entender melhor o porquê de tantos porqueres.

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