Você se sente incomodado pelos vizinhos?
Unzinho que tem um cachorro que não para de latir. Outro que faz festas e não abaixa o som nem a crista. Aquele terceiro morador logo do lado. Que toma banho peladinho e faz questão de mostrar seus documentos pela janela limpinha. E você, sem querer desejando mudar de cenário. Passa a olhar, por outra janela do edifício, aquela vizinha bunduda mais parecida a uma tanajura depois de fazer plástica e injetar silicone no traseiro. Se tudo isso te incomoda não se sinta incomodado. Ou se muda daquele apartamento apertado. Onde mal cabe a sua mobília e seus trastes que vivem dependurados nas janelas. Melhor você se mudar ou acabar tolerando os incômodos da vizinhança.
A gente não vive solitário numa ilha deserta. Rodeado de um marzão sem tamanho, tomando água de coco sem pagar um preço abastado como nalguma praia do litoral brasileiro. Diga-se Rio de Janeiro em plena época do verão.
Vivemos cercados de pessoas. Rodeados de tudo um cadinho. De vizinho que incomoda e de outros que falam baixinho.
Esse caso que ora descrevo. Cujo protagonista principal se chama Zezinho, mas poderia se chamar outro nomezinho qualquer.
Tem na carinha lambida um narizinho que sempre está entupido. Elezinho vive tirando melequinhas daquele salão com todos os dedos das suas mãos. Mais acima moram seus olhinhos claros. Azuis para ser mais exato.
Os olhinhos do menino Zezinho vivem a lacrimejar. Ele já foi há mais de uma dezena de médicos dos olhos sem resultados positivos. Já usou uma bagatela de colírios com ou sem receita de um médico especialista.
Do lado de cima da sua carinha moram seus dois olhos. No andar de baixo paga aluguel seu narizinho arrebitado. Aquilo que deveria ter serventia para respirar só vive entupido. Sempre tem uma carninha ou melequinha para tirar-lhe o sono.
Zezinho já fez de tudo para aliviar-lhe os sintomas. Foi a um otorrino que vivia rindo durante a consulta. E noutra feita fez uma visita bem paga a uma doutora das vistas. A qual era tão bonita que só de olhar pra ela as vistas melhoravam. Mas neca de pitibiriba. Saia da consulta da oftalmologista com os olhos dilatados sem nada ver. E, de volta do otorrino, com as narinas mais entupidas ainda. Ao pagar a consulta, um valor bem cabeludo, quase morria sem respirar o ar impuro daquela salinha acanhada. Que de tão pequena, quando um paciente entrava outro tinha de murchar a barriga para não ficar entalado na porta.
Não importa o tamanho da porta. Como também não contem aos outros se gostaram ou não da minha crônica de agora cedinho.
O fato retrato que me ensejou a escrever esse texto, não sei se crônica ou conto.
Foi esse episódio no dia de ontem sucedido.
Encontrei-me com o garoto Zezinho. Eu ia e ele vinha aqui pertinho. Quase nos topamos os pés. Subimos pelo mesmo elevador sempre lotado. Essa coisinha que sobe e desce parava de andar em andar. Mas ele não andava e somente subia ou descia.
Paramos juntos nesse meu sétimo, onde tenho a minha oficina de trabalho.
Zezinho fungava fino e grosso. E dos seus olhinhos opacos emergia um ar de desconsolo.
Elezinho me queixou de tudo um pouco. Não sei se ele me conhecia. Se sabia ou ressabiava que eu era médico dos rins e aparelho genital masculino. Aquele cirurgião que opera tanto as fimoses e faz toque quando o paciente permite.
Zezinho me queixou, ao deixarmos o elevador subir ao andar de cima. Que tinha dois vizinhos na sua carinha lambida que se incomodavam entre si.
De um lado o seu nariz entupido. Mais acima seus dois olhinhos que viviam a chorar e lacrimejar.
Não cabem dúvidas. Os olhos do Zezinho e seu narizinho funguento. Pra mim são incômodos vizinhos. A solução contra a dissolução talvez seja convencer os dois a se mudarem.