Batendo em portas erradas

Nos meus tempos de criança, brincando naquela rua que daqui se avista nessa manhã de sexta feira meio encoberta pela madrugada. Por vezes batia em portas, ou tocava a campainha, ou apertava o interfone. Na intenção de apenas bulir com os moradores. E quando um deles aparecia à porta euzinho nem mostrava a carinha. Corria desembestado rua abaixo junto aos meus amiguinhos de antão.

Saudades da minha infância perdida que não se acha mais.

O tempo me fez mudar. Mudei-me, de aquele moleque de dantes, para esse médico que escreve tanto.

O tempo conspira contra nós. De jovens nos tornamos adultos. Nessa idade vem com ela a responsabilidade. Num dia acordamos velhos. Ai temos de aproveitar muito o tempo que nos resta.

Elegi, pra ultrapassar minha senilitude com atitude e clarividência, ainda não deixar a medicina perdida apenas nas lembranças. A urologia ainda faz parte da minha especialidade. Não vai ser a idade provecta que irá afastá-la de mim. Não sei a razão de escrever tanto. Ah, não fosse por isso… Esse costume de acordar bem cedinho. Aqui chegar de mansinho. Nesse prédio onde tenho a minha oficina de trabalho.  Onde ainda exerço a medicina, em menor escala que nos verdes anos. E não tivesse a inspiração que me cavouca a cada dia. Não seria quem sou. Apenas mais um velho entregue aos seus derradeiros dias. A espera de um dia de novo encontrar com meus pais no azul do céu que hoje se tinge em cinza claro.

Tive a audácia, renomeio-a de coragem, de nessa altura do jogo da vida editar mais um livro. Dentre os mais de vinte que já pus aos olhos dos leitores. Muitos se encontram encalhados dentro da estante que se encontra nos meus costados. Perfilados um a um como soldados em fila indiana.

Sempre que lanço algum livro passo meu chapéu nas empresas da minha amada Lavras.  Pedindo encarecidamente um apoio ou patrocínio.  Muitas portas se abrem ao meu pedido. Já outras se fecham educadamente a minha súplica dizendo: ”por favor, volte noutra hora. Já esgotamos nossa verba nesse ano. E agora damos prioridade a outras entidades. Não se importa não”?

E eu volto a bater noutra porta. Não para fazer gracinhas como no meu tempo de criança. E sim para tentar amealhar recursos para publicar mais um livro.

Livros não são objetos da preferência de muitos compatriotas. Livros impressos, então, perderam seu lugar para leituras virtuais. Agora as crianças não se desgrudam dos computadores. Passam horas e outras nos seus tablets e congêneres. Mal sabem elas o poder educador dos livros editados. Quando nasce um de minha autoria é como se um filho viesse ao mundo sujismundo em meio aquele liquido da placenta.

Tenho batido em muitas portas. Poucas se abrem ao meu pedido. Não me importa o tamanho da porta. Mesmo que seja uma portinha minúscula eu bato e insisto e não desisto.

Estou na iminência de lançar meu O Canto das Cigarras. Não sei ainda o dia nem o mês. Mas que vai ser posto aos olhos dos leitores pra mim não restam dúvidas. Quantos exemplares irei mandar fazer ainda não está nos meus planos. Não muitos nem tão poucos. A quantidade certa para não ter a desventura de ver alguns encalhados na minha estante junto aos  seus irmãos.

Bem sei que por vezes, muitas, bato em portas erradas. Muitos paitrocinadores dizem não ( explico paitrocinadores . Quando, em tempos idos, levava meu filho a jogar tênis em outras cidades, eu, pai herói, não media esforços para satisfazer a nossa vontade.  Ia no meu carro. Junto a outros tenistas. E torcia calado pela vitória do meu filhote).

Já agora, na quase aurora da minha vida, nesse final do mês de fevereiro. Espero que as águas de março não levem meu novo livro pra longe dos meus olhos e de vocês meus leitores. E que meu canto das cigarras agrade aos seus olhos como agradaram os meus.

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