Não necessariamente nossos melhores amigos nos escutam, discutem e falam com a gente. Dão-nos abraços apertados. Comem ao nosso lado. Acabam dormindo na mesma cama cansados da lida. Fazendo amor com a gente. E se tornam indiferentes quando desconfiam de nossa amizade.
Cães são amigos verdadeiros. Amam-nos por inteiro. Amizades gratuitas que não cobram retorno. Não diferenciam entre ricos ou menos endinheirados. Ficam ao nosso lado nos bons e maus momentos. Agradecem quando os alimentamos. Abanam os rabinhos e ladram com carinho. E mordem aqueles que tentam ameaçar seu donos protetores.
Cães não choram como a gente. Não derramam lágrimas de crocodilo ao engolir a presa. E não fazem diferença se somos bons ou maus. Aceitam nossa amizade mesmo que não sejamos tão amigos. E como tem gente que não aprecia os cães. São capazes de fazer atrocidades com nossos melhores amigos. Atá-los a correntes sob um sol escaldante. Ou deixá-los presos quando eles tanto prezam a liberdade.
Arizinho, menino criado na rua, nascido de pais desconhecidos. Meninozinho esperto e de riso fácil. Mesmo vivenciando as atrocidades da vida. Aos nove anos nunca frequentou uma escola. A escola da vida apenas a ele ensinou coisas ruins. Elezinho, por não ter um lar de verdade. Sempre viveu e conviveu com a maldade. Aos cinco aninhos experimentou nos costados a dor da borduna do guarda. Quando, em más companhias afanava chocolates numa lojinha da periferia. Não foi levado às autoridades na delegacia por ser ainda uma criancinha. Passava fome nas ruas. Quando tentava esmolar num semáforo. Limpando os para brisas dos carros a fim de ganhar uns trocados.
Num dia de chuva intensa Arizinho tentava se abrigar da chuvarada debaixo de uma marquise.
Um guarda chuva improvisado dava-lhe guarida naquela rua movimentada. Ali havia passado a noite em claro na escuridão parcamente iluminada pela luz dos postes.
Arizinho sentia frio e fome. A sua barriguinha magricela ronronava de fome. Mal tinha forças para suportar a dureza de um novo dia.
Ao seu lado amanheceu um cãozinho. Desses bem sofridos. Cãozinho de rua abandonado desde filhotinho. Ele tinha uma pelagem negra como a noite escura. Uma carinha de abandono. Um arzinho de sofrimento que parecia a mesma do menino Arizinho.
Ele, e o menino Ari, pareciam entregues a mesma sorte madrasta. Pessoinhas em eira nem beirada, sem onde se encostar.
Arizinho batizou aquele cãozinho de Fumacinha. Talvez por sua semelhança com uma fumaça que logo se desfaz no ar. Logo se entenderam e ficaram amigos. Uma amizade de verdade descompromissada com falsidades. A partir daquela noite escura nunca se desgrudaram.
Era um pelo outro. Repartiam os restos das sobras à porta de restaurantes. Não passavam fome já que comiam o que lhe davam.
Arizinho e Fumacinha eram vistos caminhando lentamente pelas ruas. Enquanto Arizinho fazia uns biquinhos a fim de ganhar uns trocados. Vendia balas num sinal de trânsito. Limpava desconfiado os vidros dos carros que esperavam o sinal verde para passar. Fumacinha fingia dormir. Mas de olhos abertos observava o amigo; tentando protegê-lo das pessoas malvadas.
O tempo só dava conta de aumentar a amizade entre os dois. Arizinho e Fumacinha eram como irmãozinhos mesmo de genética distinta.
Dormiam ao relento. Comiam o que lhe davam. Um dia os encontrei tomando banho na fonte naquele tanque de águas bailarinas que se iluminam em noites sem lua.
Arizinho se preparava para dormir num caixote de papelão enfiado num cobertor surrado. Fumacinha lhe fazia companhia. Com o focinho entre as pernas do menino. Fazia frio naquela noite. Para piorar mais ainda a situação dos dois chovia grosso.
Arizinho, resfriado e meio, tossia uma tosse de cachorro. Fumacinha tentava aquecer seu amiguinho. Debalde, pois a situação doentia do pequeno Ari ia de mal a pior.
No meio daquela noite Fumacinha, preocupado com a doença de Arizinho. Febril e tremendo muito. Atravessou aquela rua correndo com as patinhas andejas de que era dotado. Não teve tempo de chegar ao outro lado. Foi atropelado por um ônibus em movimento. Feito em fatias pelas rodas do veiculo. Morto sem ter tido tempo de orar uma oração em honra e glória da santinha protetora dos cães vira latas, que são gente como a gente.
Daquele cãozinho de nome Fumacinha só restou um monte de pelos negros grudados no asfalto.