Comecei por trocar o r de ereções e o l de troca.
Mas entendam que a minha intenção foi outra e não essa. Já que eu não tenho o costume de trocar letras nem de dar nome aos bois quando essa boiada se trata de um monte de vacas.
Chiquinho, desde quando garotinho, na escola aprendendo o baba. Não tinha como mudar seu hábito, menino letrado, de trocar as letras das palavras. Ao revés do L elezinho se confundia e escrevia R. Na mesma ladainha, na missa das dez ouvindo o sermão do padre. Quando ele dizia: “vão em paz e que Deus os acompanhe”. O mesmo Chiquinho, de ouvidos atentos e boca caladinha. Dizia a sua mãezinha: “mãe. O padre si dispidiu da gente dizendo. Vão, mas vortem. Qui Deus vai com a gente. Vamos em frente que di trás vem mais pessoa”.
Chiquinho espichou nem um cadiquinho. Não passou de metro e mucado. Quase um anãozinho desses que pinta rodapé sem carecer se abaixar ao rés do chão.
Avizinhavam-se as eleições na sua cidade. Era outubro em seu começo. Candidatos prometiam mudar o curso do rio sem que ele soubesse pra onde iria. Um deles, postulante do cargo de maior autoridade da cidade. Prometeu, se eleitor fosse, não deixar nenhum defunto ser enterrado em cova rasa. Ele mesmo iria cavar uma cova tão profunda que iria dar no outro lado da terra. E esse morto teria de aprender mandarim para se entender com os chineses.
Entre outras promessas que nunca seriam compridas. Esse mesmo candidato, de nome esquisito Sildenafila. O sal usado pra fazer o Viagra. Sildenafila prometeu, de joelhos postados na terra nua. Cheia de pregos para doer mais. Que, se eleito fosse reduziria o preço da picanha ao mesmo patamar de carnes de segunda. E daria esse quilograma de picanha aos seus cupinchas. Mais uma dúzia de caixas de cerveja geladinha e uma geladeira.
O segundo candidato ao cargo de prefeito. Mais imperfeito ainda que o primeiro. Foi batizado de Tadalafila. O outro medicamento concorrente do Viagra, que promete fazer milagres com aquilo que pensa subir e só fica duro em pensamentos. Jurou e desconjurou que, se fosse eleito naquele pleito, não cobraria impostos da camada mais empobrecida da população. Em contrapartida iria taxar os ricos e milionários com uma soma tão polpuda como a bunda da tanajura que quase encosta no chão.
Chiquinho Tloca Letras não sabia em quem votar sem se revoltar.
Mas o tempo rugia já que as eleições se avizinhavam.
Na cabecinha oca do Chiquinho era pura indefinição.
Eis que é chegada a hora de as urnas abrirem as bocas famintas. E não seria permitido fazer boca de urna, se não elas mordiam. Mas Chiquinho passava por dificuldades financeiras. Estava mais duro que prego enferrujado sendo retirado da cerca.
Na hora de dar seu voto aos devotos Chiquinho acabou trocando letras.
Indefinido se iria votar no Sildenafila ou no Tada. Já na boca escancarada da urna lembrou-se daquela vez que falhou na hora H. Foi uma broxada salva pelo Tadalafila. Que ingeriu boca abaixo antes da hora prevista.
Voto decidido, ganhou a eleição o candidato Tadalafila. Que teve de enfrentar uma fila enorme para ser cumprimentado pelos puxa sacos.
E Chiquinho tloca letrinhas miúdas pelas de maior porte. Já que não enxergava mais tão bem melhor.
Ao dar os parabéns ao candidato vencedor. Acabou trocando o L pelo R. E disse mais uma besteira dentre as tantas que costumava dizer.
“Parabéns pelo resultado das ereções seu Tadalafila. Tomara tenha insucesso no seu mandato”.
Eu não sei o final da historinha. Essa foi mais uma invencionice minha. E eu nunca precisei tomar nem Viagra nem o tal Tadalafila. Pra mim o melhor é pastar em capim novinho quando chove um bom bocado.