Só quem não anda não vê. Não observa o entorno com suas belezas e feiúras.
Quem não bate perna, não anda como canela de cachorro vadio. Vendo nas ruas sem venda nos olhos. Ou fica cego ou engorda.
Não é esse o meu caso. Que ando mais que noticia nada alvissareira.
Se for contar quantas pernadas eu dei, teria dado centenas de voltas na terra.
Dai a minha escrevilhança. Meu costume de retratar com cores vivas o cotidiano. Se ele for de cor cinzenta tinto ele em cores vivas. Se o sol não brilha faço com que a lua lhe faça companhia e o ajude a se alegrar numa amarelice brejeira.
Andando sempre dou asas à imaginação e me cubro de paixão.
Foi hoje o acontecido.
Raras vezes faço do carro um modo de me locomover. A hora do almoço assim o fiz.
Gostaria de trocar uma caixa de sodinhas na parte norte da cidade. No cruzamento da rua onde cresci, com outra artéria que vê a cidade ao longe. Deparei-me com um garotinho tentando vender balas num semáforo. Foi a primeira vez que o vi. Impressionei-me com a doçura e a pureza da criança. Ele deveria ter uns sete ou oito anos, se tanto. Moreninho da cor de um jambo maduro. Perninhas dobradas nos joelhos. De vez e quando, quando o sinal fechava. Elezinho oferecia educadamente seus produtos aos passantes. A maioria nem abria a janela dos autos. Uns parcos compravam suas paçoquinhas e as balinhas que ele trazia cuidadosamente embaladas numa caixinha.
Àquela hora não parei. Estava com pressa. Mas o garotinho me impressionou, deveras.
Não o tirei dos pensamentos. Ele sim merecia vender todos os seus produtos.
De retorno do clube onde me exercito todas as tardes vi o mesmo menino no mesmo lugar de dantes. Parei um cadinho. A conta de prosear com ele. Na hora não lhe perguntei o nome nem quem ele era. Acabei indo depois de dizer a ele que não tinha dinheiro naquela hora. E ele me respondeu, com a carinha melhor do mundo: “meu senhor. Eu vendo fiado.”
Meu coração doeu de verdade. Esporeei minhas pernas em direção ao apartamento onde morava. Da carteira retirei uma nota de cinquenta reais.
Em menos de dez minutos estava de novo naquele cruzamento entre duas ruas. Lá ainda estava o garotinho vendendo petiscos no mesmo semáforo.
Entreguei-lhe a nota. Penso que ele nunca teve uma de igual valor nas suas mãozinhas limpas.
Pedi que ele se levantasse. E não aceitei receber seus produtos.
Seu nome era Alexander. Ou algo parecido. O pai, pedreiro, morava num bairro operário distante. Ele me disse estudar e ser bom aluno. No que depositei a maior fé.
Fizemos uma selfie juntos que inda agora postei no face.
O menino da paçoquinha e vendedor de balas me impressionou não só pela candura e seriedade. E também pela carinha boa mesmo naquela situação adversa.