A casa onde gostaria de passar meus últimos dias

Com certeza não seria aquela onde passei minha infância, pois ela não existe mais.

Nem aqueloutra, enorme, a qual construi a duras penas, no começo de minha vida profissional.

Aquela situada num condomínio elegante. Recheado de verde, onde morei tempos depois. Também não seria a de minha predileção.

Nem ao menos nesse confortável apartamento. Onde agora resido. Pertinho da minha oficina de trabalho. Lugar bem no centro da minha cidade. Seria a minha derradeira morada.

Não que esteja vaticinando o final da minha existência terrena. Pretendo, se meu paizinho do céu permitir. Aqui acordar bem cedinho. Como nessa manhã ensolarada, janeiro quase partido ao meio. E continuar a retratar esse cotidiano que não só me faz suspirar como me inspira sempre. A mesma hora de sempre. A cada manhã ao aqui chegar.

A casa onde pretendo passar meus últimos momentos fica à beira de uma represa. Resultado da doma de um rio que já foi grande. E agora tem seu caminho cerceado em seu caminhar. Já que rios não podem voltar e não retrocedem e só escorrem a frente. A caminho do mar.

Essa casa fica na minha rocinha. Pertinho da minha cidade. Onde mora gente simples e confiável. Para quem um aperto de mão vale mais que dezenas de palavras. Lugar onde aprendi que vaca só da leite aos olhos do dono. Que deve estar presente ao lado delas. Gente obreira de mãos caludas e tezes tostadas pelo sol. Pessoas acostumadas a acordar cedinho. Já que na roça não tem feriados e dias santificados. De sábados aos domingos a labuta é sempre a mesma.

A minha casa foi construída há tempos recentes. Não é tão velha como meus anos.

Ela tem uma varanda que olha para as águas daquela represa. E uma fileira de pingos douro quase impede seu olhar de intenso deslumbre.

Entrando por uma porta de vidro adentramos à cozinha. E que espaço aconchegante. Um fogão a lenha ali se deixa ver. Ele quase não foi usado. Espera, com suas achas de lenha adormecidas. Que um dia, num frio que há de vir no inverno. Nele botemos fogo. Para nos deliciarmos com uma comidinha gostosa como uma feijoada feita com capricho por minha cozinheira do coração. Beirando esse fogão a lenha mora uma churrasqueira de pouco usada. Isso acontece quando meu amigo Marcelo ali compare dando ar de suas habilidades na cozinha.

Contiguo a cozinha se espreme um pequeno lavabo. Local ínfimo. A conta de um vaso sanitário e uma pia sobreposta a um grande espelho.

A sala de jantar fica logo ao lago. Uma mesa grande, sempre pronta a nos receber. Tem lugar pra minha família inteira.

Em intimidade a sala de jantar situa-se uma salinha de dimensões modestas. Ali fica a TV e dois sofás acolhedores. Uma porta deixa entrar para mais um quarto no andar de baixo. Uma cama de solteiro, dessas bem antigas. Quase não foi dormida. Nesse mesmo ambiente mora um banheiro. Seu chuveiro nunca se permitiu um banho sequer. Uma pia e um espelho ali ficam a espera de uma visita. Um dia ela vem.

Subindo para o andar superior uma escada de dois lances nos leva aos quatro quartos.

Um deles, a mão direita, é o meu. Conto nos dedos às vezes que ali pernoitei. Foram bem poucas. O suficiente para acordar e vislumbrar a vista maravilhosa do lago. Que de uma sacada se deixa ver.

São mais três quartos não dormidos. Num deles mora um computador. Onde algumas escrevi. Daquele quarto se pode ver noutra sacada o mesmo lago. De onde ainda admiramos a piscina e um salão de portas fechadas. Que recentemente foi usado no meu cumpleanos.

Dois espaçosos quartos de dormir se encontram no andar de cima. E um banheiro de dimensões genenorosas acolhe-nos a hora do banho.

Essa casa tem tudo que gostaria. Perdida no meio do nada. Com uma vista deslumbrante.

Poucas vezes ali fiquei. Confesso, deveria ficar muito mais.

Hoje conto com setenta e seis. Pleno de saúde e recheado de inspiração.

E me pergunto: “por que não ali passar meus últimos dias? Escrevendo meu derradeiro romance? É o que espero para o meu porvir. Embora ainda esteja distante a minha despedida.”

 

 

 

 

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