O ano mal começou e a crise já se instalou.
Janeiro começou meio mal. Meio não, inteirinho.
Comércio a espera de clientes. Lojas vazias no troca troca de sempre.
Dinheiro em falta. Em contrapartida não falta gente interessada em trocar de emprego. Já que o salário não anda lá essas coisas. Que tal ganhar na sena da virada? Pena que meu bilhete não foi premiado. Na próxima vez prometo ser contemplado. Ai sim; vou dar uma banana bem dada ao meu patrão. Vou me mudar para Pasargada. Quem sabe ali serei amigo da rainha? E elazinha vai me dar meu lugar ao sol numa praia paradisíaca. Vendo o sol nascer redondinho num lindo solstício.
Essas conjecturas todas são frutos da árvore de ideias esdrúxulas de um tal de Zé da dona Tiana.
Que acordou naquela segunda feira de janeiro com as contas atanazando-lhe a razão.
Zé não tinha como pagar nem a conta de luz. O aluguel, atrasado desde o natal passado, vencido e ele convencido que não dava conta de pagar. A senhoria estava prestes a lhe mandar pro olho da rua.
E que calor fazia naquele começo de ano. Ar condicionado não era convidado em sua casinha entrar. O ventilador, comprado a prestação, acabou ventando noutra freguesia. Zé não tinha outra opção senão dormir pelado, de janelas abertas, na escuridão. Só que, vizinhos inoportunos avoavam zunindo por sobre sua cabeça. Deixando suas marquinhas em forma de picadas, os safadinhos ditos pernilongos.
Zé não tinha sossego. Pulava de emprego a outro dizendo que iria melhorar. Mas quem o dera. Vivendo na mesmice costumeira nada de ganhar mais um cadinho de nada. Por sorte Zé não tinha mulher. A última que lhe caiu nas graças caiu em desgraca. Sorte dela já que o desafortunado Zé nada tinha a oferecer de melhor.
Naquele janeiro molambento Zé acabou ficando desempregado. Nunca chegava à horinha exata. Dava desculpas andrajosas que não eram aceitas pelo patrão. As contas entulhavam o tampo da mesa. Muitas delas vencidas desde o ano retrasado.
Zé não tinha parança nem paradeiro certo. Irrequieto nunca parava quieto.
A vida para o Zé tava ficando difícil. Difícil é pouco. Bota dificuldade nisso.
A única alternativa para sair das intempéries da vida seria mudar de vida. Mas como? Diria eu…
Ele, Zé da dona Tiana, sua amada mãezinha, falecida no ano passado era o seu sustentáculo. A única que nele cria e que lhe deu cria. Agora, sem elazinha, Zé perdeu o prumo e o rumo. Ficou desnorteado trôpego pelas estradas da vida.
Foi num dia desses que o encontrei.
Não sei se foi ontem ou trasanteontem.
Zé dormia num banco da pracinha. Perto de outro banco onde emprestam dinheiro.
Acordei-o mansamente para não assustá-lo. Já o conhecia de tempos idos. De dias melhores se bem me lembro.
Zé acordou esfregando as olheiras. Com um bafo de cachaça que, se pusesse fogo causaria um incêndio.
Ofereci-lhe um café numa padaria nas cercanias. No que ele aceitou sem me desagradar.
Zé lavou a cara numa poça d’água da chuva de ontem de noite. Vestiu um casaco dado de graça por um passante.
Uma vez na padaria, depois de nosso desjejum frugal. Uma vez satisfeita a sua fome. A ele manifestei minha curiosidade em saber como ele ia. Estava na cara que de mal a pior.
“Zé, o que tens feito na vida? Nada, pelo visto mal vestido. Continua morando na rua? Dorme naquele mesmo banco? Continua desempregado né? Cria vergonha na fuça! Você ainda é jovem e tem saúde”.
Zé me respondeu agradecido e ao mesmo tempo irritado.
“Ah! Tem jeito não. Tudo que faço da errado. Já tentei de tudo. Fui despedido por injusta causa. Chegava atrasado uns dias sequer e meu patrão não me quis mais. Se foi culpa minha não sei. Não estudei, tá errado e não acertado. A verdade é que não gosto de trabalhar. Acordo mais cedinho para ficar mais tempo atoinha na vida. Me dá uma canseira danada só de ver os outros trabalhar. E assim vou vivendo convivendo com minha preguiça.”
Deixei o Zé falando sozinho. Como ajudar uma pessoa desse jeitinho?
Tá difícil né?