Tem de aguentar…

O tempo conspira contra um bom relacionamento com o passar dos anos.

Quanto mais se vive mais se aprende.

Essa premissa aprendi. Para que uma boa relação não esfrie mister se faz acalentá-la em banho maria. Na água não muito quente nem muito fria. E sim na temperatura ideal. Nesse calorão que tem feito seria prudente ao derredor de uns vinte e cinco graus.

A vida sem ela seria como goiabada sem queijo de minas. Algo parecido a subir na jabuticabeira e ali não encontrar jabuticabas madurinhas.

A gente se acostuma a muitas coisas. Mas viver o resto da vida solitário não consta no meu dicionário. Carecemos de um rabo de saia. Melhor ainda aquilo que vai por dentro. Precisamos de carinho, de achego, de respeito mutuo e de muita paciência.

O convívio entre duas pessoas muda com o passar do tempo. A principio tudo eram flores.  E no mais tardar dos anos os espinhos nos espetam.

Quando jovens, apaixonados, a cada palavra dada vem outra dizendo a mesma coisa. Mas, não se enganem. Uma vez a convivência se alongando quando dizemos amor, por vezes o desamor fala mais alto.

Dai a necessidade de cada vez mais cultivarmos respeito, carinho, compreensão e entendimento.  Uma viagenzinha de vez em quando aquece aquela chama apagada fazendo-a crepitar novamente.

Seu Ariosto e dona Arlete nesse ano completam bodas de mais de setenta anos de casamento. Ambos têm a mesma idade.  Ele noventa, ela quase isso.

Conheceram-se jovenzinhos no rela do jardim. Ela andando no sentido das horas. Ele ao revés.

Foi amor à primeira investida. Não que dona Arlete fosse garota rodada. Ela sim rodava no entorno do jardim. Mocinha pudica nunca sequer teve um namorido nos seus quinze aninhos. Ariosto foi o primeiro e o derradeiro. Com ele se desvirginou.

Casaram-se nos idos anos de antigamente. Ainda se lembra da lua de mel que quase terminou  em fel.

Acontece que Ariosto não tinha um tostão furado. Nem como pagar o hotel onde se hospedaram. O carro, que foi emprestado de um tio torto, no meio da viagem teve um pneu furado. Tiveram de pernoitar num motel à beira da estrada. Onde a linda e prendada mocinha Arlete teve seu selo de castidade roto.

Muitos anos deixaram rastros de saudades. O casal envelhecia a anos vistos.

Tiveram uma penca de filhotes. Que lhes deram uma centena de netos.

Nesse ano em curso o casal fez setenta anos de consórcio.  Entre tapas e xingos eles mal se davam.

Toleravam-se mal e muito mal.

Seu Ariosto até pensou na separação. Ele aos noventa e ela aos quase isso.

Viver desse jeito desajeitado. Cada um se queixando do segundo. Entre rusgas que nunca terminavam bem. Naquela altura da discórdia quem sabe vivendo cada um no seu canto melhorasse o encanto?

Foi quando tive a oportunidade de tentar melhorar aquilo que mais e mais ficava pior.

Foi num dia como esse que cutuquei o casal com vara longa. Mantendo distância segura para não azedar ainda mais a relação.

Ao seu Ariosto perguntei: “e ai amigo? Está seguro que deseja se separar? Não acha que já passou muito tempo para começar de novo? A sua esposa merece mais uma chance. Melhor com ela do que sem. Afinal são muitos anos de união, né”?

Ele nem teve tempo de responder.

Dona Arlete pediu a palavra e não tive como recusar.

“Ah é? Depois de tanto tempo ele vem com isso. Brigamos sim. Por vezes ficamos de mal. O homem é teimoso como burro empacador. Pensa que sabe tudo. Agora, que já passamos da hora, ele pensa em separar. Mas tem de aguentar. Come o filé, mas tem de roer o osso até o tutano. Não concordo com a separação. Melhor comigo que sem migo. Tenho dito e não assino por cima”.

Não sei se eles se separam de vez. Bem que tentei.

 

 

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