Resignação, resiliência, aceitação, estoicismo, submissão a vontade de alguém, são palavras que nem sempre fazem parte de nosso cotidiano.
Como exemplo cito um fato acontecido há anos atrás. Perco-me quando foi, no entanto foi verdade.
O trágico acontecido se deu na minha rocinha. Quando ainda lá trabalhava, mais se queixava de doenças que propriamente empunhava a enxada. Uma alma boa de nome Custódio.
Ele era mestre em me dar noticias ruins. Das boas ele se esquecia.
O fato se deu numa tarde chuvosa. Creio que num começo de ano. Janeiro para ser mais exato.
Estava na cidade. Atarefado no hospital a tentar desentocar uma pedrinha desgarrada entre os rins e a bexiga. Quando o telefone tilintou.
Uma vozinha triste se ouvia do outro lado da linha: “doutor Paulo. Não sei como lhe dizer. Meu filhinho mais novinho, de nome Claudemir. Num descuido de minha mulher Hilda. Que estava pertinho na horta de couve. Elezinho, nos seus dois aninhos, acabou caindo de carinha naquele açude barrento perto de minha casa. E ele se afogou. Morreu como um passarinho. Agora estou com ele morto aqui na minha casa. O senhor pode nos acudir?”.
Naquela hora ingrata num impulso terminei minha operação. Felizmente correu tudo como gostaria. O paciente se viu livre de sua pedrinha encalhada. E eu, na minha Variante cor de burro fugido e assustado. Em alguns minutos apenas cheguei onde a tragédia havia acontecido. Naquele cenário enlutado encontrei a família resignada. No entanto eu, na minha intranquilidade citadina, acabei interpelando o pai daquele garotinho que ainda nem pôde conhecer a vida com essas palavras ásperas: “Custódio, como vocês deixaram isso acontecer. Coitadinho do Claudemir!”
No que ele me respondeu resignado: “doutor Paulo. Foi Deus quem quis assim”.
Levei o defuntinho num caixãozinho branco, corpinho enfeitado com florzinhas bancas, à cidade perto de Ijaci. Cuidei eu mesmo do sepultamento num túmulo de um conhecido e voltei à cidade pensando no estoicismo da gente da roça.
Eles têm muito a nos ensinar. Podem não ter estudado tanto. Mas sabem melhor que a gente quando vai chover sem ser preciso consultar o serviço de meteorologia. Conhecem, só de olhar pra lua, quando a vaca vai dar cio e qual a melhor época de plantar.
Naquele dia enlutado a palavra resignação me fez pensar no quanto não vale a pena nos deixarmos levar pela intranquilidade, pela afoiteza no trato com as pessoas, com o desassossego que nos faz perder o sono.
Aqui mesmo, na cidade onde moro. E pretendo viver muitos anos mais.
Mora também um personagem bem ilustrativo do que seja viver de bem com a vida.
Sem se apoquentar com as dificuldades que se interpõem em nossa caminhada.
Quem não conhece o Ai Ai com certeza ainda não bateu pernas pelas ruas da nossa Lavras.
Ai Ai é aquele sujeitinho andarilho. Mais andejo do que eu. Que, sempre de mãos estendidas nos pede uma moedinha. Quando ele está mais chapado exige mais que uma. Ou uma nota das graúdas. Segundo me disse um velho conhecido, Ai mais um ai vai a uma boca de fumo e ali compra umas pedras de crack. Mesmo não sendo um craque da bola ele se tornou viciado, Fato retrato que não lhe impede as andanças e o bom humor costumeiro. Segundo outra fonte confiável, não se trata de fake news. Ai Ai, num dia passado encontrou, na sua perambulança pelas ruas da cidade, uma carteira que não era dele. Não sei se cheia de dinheiro ou recheada de documentos. O fato é que ele no dia seguinte a devolveu ao dono.
Voltando às vacas magras, retrocedendo ao meu querido Custódio da dona Hilda. Pessoas hoje distantes da minha roça e pertinho do meu coração. Gente da melhor estirpe. E ao Ai Ai que deve estar agora à porta de um supermercado a esmolar moedas.
Foi que pensei no titulo acima.
Desgraça pouca é bobagem.
Pra que nos descabelarmos com tão pouco se eu quase não tenho cabelo? A pressa e o afogadilho perdem o sentido nessa vida tumultuada em que nos encontramos.
Calma gente, que atrás os apressados podem atropelar a gente.